Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe manual

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.19

Outono.jpg

 

Tenho as mãos feias.

Sempre tive consciência do tamanho das minhas mãos. Dos ossos demasiado longos, finos, dos dedos com nós salientes, da fealdade dos seus movimentos deselegantes, da impossibilidade de as adornar.

Escondia as minhas mãos, era criança. Matava-as nos bolsos dos bibes e das batas e dos casacos ou mantinha-as muito fechadas de forma a que aqueles bichos não ocupassem o espaço dos outros.

As minhas mãos envergonhavam-me.

Comparava-as com a lisura, com a harmonia, com os diáfanos voos e com a perfeita forma das mãos da minha irmã e sentia-me bruta e torpe e grosseira.

Permitiram, os dois bichos, entregar alternativas aos meninos da escolinha. Era o fósforo ou a mãos-de-tesoura. Nunca entendi qual o que cortava primeiro, nunca soube se era o aço a cortar o fogo ou se era o contrário. Nunca gostei do jogo.

O meu avô gostava das minhas mãos.

 

-  São como as grades do portão. Fecham o que quiseres dentro de ti.

 

As minhas mãos tornaram-se ágeis de tão feias. Aprenderam a escapar, a desaparecer, a espreitar, a surripiar silêncios e a mover com uma perícia e rapidez inusitada minúsculos objectos, detalhes, pormenores e nadas que, em mãos diferentes e perfeitas, se partiam no tempo da tarefa.

Guardava dentro delas os meus mundos. 

Assim aconteceu.

 

Tenho as mãos feias, mas é Outono.

Os dedos das árvores são medonhos, mas são meus.  

 photo man_zps989a72a6.png


12 rabiscos

Sem imagem de perfil

De Janita a 18.09.2019 às 14:54

Cara Gaffe - que raio de nome para se chamar a alguém - não fora o tema deste postal ser algo que me toca de maneira + ou - intensa, e talvez nunca chegasse a saber da minha apagada existência.
No entanto, soube eu da sua e deste «bom blogue», como diria Dom Pipoco, há pouquíssimos dias e através do TEMPO CONTADO (http://tempocontado.blogspot.com/2019/09/bilhetes-93.html), cujo Patrão da Barca leio religiosamente.

Isso das suas mãos serem nodosas, grandes e feias, não se preocupe, teve nas doces palavras de seu Avô o consolo que eu tanto desejava ter do meu, que perdi aos doze anos.
As minhas são brancas, de dedos longos e unhas perfeitas, disse-me-o ainda há pouco a jovem manicura que lhes deu o jeito necessário e urgente. Não fossem estas minhas mãos serem como são, - por sinal a única coisa que em mim se aproveita - e nunca o meu caminho teria cruzado com o da dona dessas mãos que, com tanta destreza e inteligência, escrevem por estas Avenidas.
Não importa a beleza do veículo que se conduz, importa isso sim, quem ele conduz...

Um abraço e até um dia destes.


Imagem de perfil

De Gaffe a 18.09.2019 às 16:09

Cara Janita - juro que não vou brincar com nomes ...
;)

Terei de visitar o Tempo Contado mais logo para procurar saber do tempo que foi contabilizado com estas Avenidas.

Foi sempre um milagre para mim ter o meu avô por perto e durante tanto tempo.
Concordo, claro. Importa mais o condutor e muitas vezes o pendura. Mas é óptimo quando somos transportados dentro da beleza.
:)
Um beijo de até já (espero eu).
Imagem de perfil

De Luísa de Sousa a 18.09.2019 às 14:58

Oh ... que lindo texto Miss Gaffe!!!
"Guardava dentro delas os meus mundos."

Beijinhos
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.09.2019 às 16:03

:)
Merci!
*
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 18.09.2019 às 17:43

E pronto. Lá vamos nós revisitar cantos e recantos escondidos.

A ti, calhou-te as mãos de que mais à frente falarei.
A mim, calhou-me (imagine-se!), o sorriso. Logo eu, que sou e sempre fui de riso fácil e de provocar o riso nos outros.
Desde que me lembro de olhar para a sombra, aí com uns 9/10 anos, que comecei a ter vergonha do meu sorriso. Porquê? Dentes tortos. E quando falamos de dentes tortos, eram MESMO tortos.
Foi quase uma obra de engenharia endireitar esta cremalheira que, ainda assim e quatro anos de ferrolhagem depois, está (muito) longe de ser perfeita. O meu ódio de estimação pelos dentistas vem desta saga interminável de logros e falta de honestidade.

Encontrei no humor uma forma de me proteger dos eventuais ataques de outros miúdos. Acho que eles pensavam que se eu passava a vida a rir e a fazer rir, de cremalheira exposta e não me importava, não seriam eles que me fariam mossa. Maneiras que se houve algum miúdo que pensou nisso, nunca o chegou a concretizar.

Mas o problema não eram os outros, era eu e a minha falta de coragem para resolver o problema.
Só aos 40 anos é que o fiz.
Porquê?
Porque vi a minha filha com 8 anos, aflita, a conter o choro numa cadeira de dentista e PROMETI -LHE que se ela fosse corajosa, a mãe também seria.
E assim foi, porque as promessas são para se cumprir e o exemplo vem de cima. Posso ser uma merda a vários níveis mas como mãe, será muito difícil encontrarem-me uma falha.



Quanto às tuas mãos,que tu achas feias, posso garantir-te que têm outros dons muito mais importantes que a beleza. Tal como todas as outras partes do corpo, vão envelhecer MAS a capacidade que têm em materializar na escrita aquilo que pensas, esse minha amiga, será sempre "ageless".

Foram esses dedos, que me deixaram agora mesmo com um friozinho na barriga e os olhos marejados. Como não estive a descascar cebola, presumo que me emocionei.
Obrigada.

:)* [ ]
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.09.2019 às 20:06

Tu és tão, mas tão bonita!!!
um dia digo publicamente porque te penso desta forma.

(Agora é a minha vez de me emocionar.)
Imagem de perfil

De Rui Pereira a 18.09.2019 às 17:49

Gaffe,
Não vou questionar a beleza das suas mãos, mas a associação metafórica do seu avô e a imagem escolhida para ilustrar o texto sobre as mesmas são muito bonitas...
Imagem de perfil

De Gaffe a 18.09.2019 às 20:03

O meu avô era a pessoa mais importante da minha vida.
Gostava das minhas mãos. Subitamente as minhas mãos são perfeitas.
:)
Imagem de perfil

De Sarin a 18.09.2019 às 22:14

Não, as tuas mãos não são perfeitas. A perfeição consegue-se até com cheques e bisturis.

As tuas mãos são vida, e a beleza nasce-lhes nas palavras do teu Avô - são as grades do portão que guarda as árvores que desfolhas em cada acto teu. Visitar estas Avenidas é saltitar entre tufos de folhas suaves e com cheiro a todas as estações.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 20.09.2019 às 23:02

O feio tem a sua perfeição, Gaffe.
Escrever um texto com tanto amor e admiração pelo avô e pelo que constrói nestas avenidas, não são para quaisquer mãos.
Imagem de perfil

De Gaffe a 20.09.2019 às 23:51

A verdade é que escreveria a vida toda se conseguisse pousar a alma nas mãos do meu avô.
:)
Assim, rabisco.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 20.09.2019 às 23:52

Que comentário mais doce!

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui