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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe matadora

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.18

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Não sou uma predadora inconsciente, capaz de lacerar a carne de cordeiros plácidos com uma ingenuidade a raiar o doentio apenas pelo prazer de sentir o cheiro a sangue e a morte próxima de mim sem me tocar, mas recuso-se a suportar a falsa inocência dos silêncios e o medíocre álibi daqueles que procuram o impoluto e a virginal auréola das vítimas sempre que se jorram no chão que sabem ser só meu.

 

Dos que enredo, caço, mordo e dilacero, nunca guardei uma escusa. Nunca armadilhei vontades. Nunca foram eles incautos, castos, lançados numa arena ou precipício.

Nunca violei. Sempre obtive uma espécie de consentimento informado quase tacitamente burocrático.

Nunca apedrejei consciências. Trato-as como iguais no seu desejo.

 

Aqueles que não morrem no meu reino - e é tão pequena a morte que lhes dou -, expressam a vontade de viver em códigos legíveis e não lhes toco nunca.

Os que sucumbem angélicos? Ninguém sucumbe sem sombras na consciência ao âmago do maior desejo. Cumprem-no, mascarando-o primeiro de indesejo, de subtil ou de externa violência, de culpa que é das feras imperiais, para que depois do já cumprido soltem as asas de pomba maculada.

 

Entre o predador e a vítima há sempre um pacto, paradoxo fatal e labiríntico, um elo mítico que faz de um soberano o súbdito que obedece ao que lhe exigem e daquele que se imola no chão de terra quente o imperador escuso daquilo que deseja. Iguais, de força igual, no assassino confronto ou no embate mais benevolente.

 

Nas pequenas mortes nas savanas dos corpos, ou nas  arenas da minha vida, não há uma hierarquia de consciências.

 

Imagem - Ruven Afanador

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2 rabiscos

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De Maria Araújo a 31.01.2018 às 22:58

"Trato-as como iguais no seu desejo."
Excelente.
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De Gaffe a 01.02.2018 às 00:11

Creio ser uma questão de ética.
:)

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