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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe médica

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.19

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Brandindo a Montblanc, sublinhando palavras com oscilações no timbre da voz, insinuando intimidades com os trejeitos das pálpebras, José Rodrigues dos Santos cita-nos uma espécie de estudo publicado no Expresso e da responsabilidade do cirurgião José Fragata e do engenheiro de sistemas Luís Martins que concluiu que o número de doentes que morrem nos hospitais portugueses devido a erros cometidos pelas equipas de profissionais de saúde é superior ao dos acidentes de viação ou sida, atingindo por ano cerca de três mil pessoas num milhão.

 

De acordo com autores do trabalho, Erro em Medicina, cujos dados resultam de uma extrapolação feita a partir de estatísticas internacionais, cerca de 45% dos erros médicos ocorrem durante cirurgias, embora apenas 17% possam ser atribuídos a actos negligentes.

O Expresso vai amontoando dados, desta feita provenientes de um outro estudo, que incidiu, diz-se, sobre 100 mil consultas e que anota terem existido erros em 3,7% dos actos praticados, provocando danos permanentes em 14% dos doentes.

Por outro lado, 20/30% dos erros têm a ver com falhas na prescrição de medicamentos.

Quando o erro envolve anestesistas, os estudos indicam que pelo menos 50% dos casos ocorre por falha humana.

Finalmente é deixado tombar o pedregulho que traz gravado que cerca de 4% dos doentes internados em hospitais podem vir a ser vítimas de um qualquer erro na medicação.

 

José Rodrigues dos Santos termina a notícia esganiçando uma reprovação mal contida quando sublinha que mais de metade dos erros avaliados em vários estudos - tantos que nem sequer se conseguem enunciar - por si consultados, podiam ter sido evitados.

 

Esta espécie de alerta público, esta variante de denúncia explosiva de alegada incompetência dos profissionais médicos, a merecer condenação e levantamento popular, surge dias depois de se saber que a Irlanda e a Galiza pretendem afincadamente recrutar médicos portugueses, pagando-lhes, no primeiro caso, cerca de 11.500 euros/mês, com horário definido pelo profissional - dobrando-se este valor se a escolha for o trabalho nocturno - e, no segundo caso, 4.000 euros/mês, com cama, mesa e roupa lavada.  

 

Não é de forma alguma correcto fazer a ligação entre estes dois espaços noticiosos, que parecem colidir numa análise abusivamente rebuscada e mais ou menos imediata, mas é interessante espreitar os intervalos.

 

Os médicos portugueses têm uma preparação científica e técnica excelentes, referem os profissionais responsáveis pela recolha dos números, atribuindo as falhas detectadas à falta uma verdadeira cultura de risco e segurança a que se junta a organização, o desenho dos sistemas em que funcionamos.

 

É impossível não pasmar.

 

A excelência dos profissionais portugueses em geral, e dos profissionais de saúde em particular, é reconhecida internacionalmente. Há neste momento gente que foi obrigada a imigrar a ser premiada nos países que usufruem da competência, da eficácia, do profissionalismo, da capacidade de inovação, do poder inventivo, da criatividade, da qualidade e do saber que saiu das Faculdades lusas.

Parte significativa da Europa espera que formemos profissionais em variadíssimas áreas para quase de imediato os recolher, os respeitar, os honrar e pagar condignamente. Deixou de se tornar necessário investir na educação e na formação qualificada naquela Europa que sabe que tem a produção e o depósito de profissionais de excelência em Portugal. Sai muitíssimo mais barato aparecer para os recolher já formados.

 

Não é claro o que se entende por uma verdadeira cultura de risco e segurança, mas é de um correcto nauseabundo atribuir responsabilidades ainda que secundárias - e passíveis de serem incluídas no tradicional pronto, está bem -, à organização e ao desenho dos sistemas em que funcionamos, pois que o desenho do sistema e o da organização é um rabisco imbecil que nem sequer tem em conta, por exemplo, que no Alentejo e no Algarve existe apenas um dermatologista a exercer funções integrado no SNS e que continua a deixar que haja uma concentração absurda de profissionais, desta área e das outras, numa pequena faixa litoral, ou a Norte, ou nos grandes centros urbanos onde há, embora não garantida, a possibilidade de acesso a equipamentos e a meios técnicos que melhor coadjuvam o trabalho que se quer sem erros.

É ofensivo citar estudos ronhosos que vomitam números de erros médicos extrapolados a partir de estatísticas internacionais, ao mesmo tempo que se ignora, ou se esconde, a ameaçadora fuga portuguesa de profissionais altamente competentes, altamente qualificados, que são absorvidos - e premiados - com elevadíssimo afã por países que se limitam a ficar sentados à espera que Portugal faça o esforço monumental de os parir.

 

Não é de todo inútil - muito pelo contrário - que se publicite uma espécie de estudo, mais ou menos rigoroso, que nos dá conta da quantidade das falhas - é evidente que existem - dos nossos profissionais de saúde, rodeando, por exemplo, o facto de haver um, apenas um, imagiologista colocado num dos hospitais do centro do país, que lê os exames se, pois que é o desenho do sistema, não estiver de férias ou não tiver ido passar o fim-de-semana à Serra. É, isso sim, profundamente lamentável que esse estudo chegue baseado em estatísticas recolhidas no exterior, que são amassadas para caracterizar a realidade portuguesa - com uma notinha de rodapé que entrega uma responsabilidadezinha ainda que parcial ao desenho e ao funcionamento do sistema -, e que apareça logo ali à esquina de convites magníficos daqueles que produziram os números que permitiram estas estatísticas, e que as emprestam para que José Rodrigues dos Santos agite com força a sua escandalizada MontBlanc.   

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6 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 11.03.2019 às 23:25

E assim se manipula a opinião pública. Com "estudos".
E sondagens.
E notícias (?) onde não há isenção.

[Entretanto, alimenta - se o povo com programas de merda que o que é preciso é dar - lhes circo que enquanto estão entretidos não reparam no que lhes andam a fazer.]


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De Gaffe a 12.03.2019 às 00:03

José R. dos Santos é o pior pivot que se avista. Todos os seus tiques e maneirismos contaminam as notícias. Não parecem credíveis quando anunciadas por ele. Não entendo como se consegue emitir parcialidade por todos os poros sem que ninguém dê por isso, ou pareça não se importar. Manipula o noticiário com inflexões de voz e agitando canetas.

(O que me deixa altamente irritada é o "damos-lhes o que eles querem". Canalhas.)
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De naomedeemouvidos a 12.03.2019 às 12:13

Deixei de suportar ouvi-lo há anos. Ao José Rodrigues dos Santos, como pivot. Não sei o que lhe aconteceu. Era um dos bons. Houve um momento de viragem para pior, insuportável, quando começou a achar que tinha graça. Acho que foi a partir do episódio do helicóptero que levantou a saia da jornalista que fazia um directo, já lá vão uns anos. Suponho que piorou ainda mais quando começou a publicar livros. A MontBlanc fará parte do miserável teatro. Há os que brilham com uma "bic" e os que dificilmente poderão aspirar a mais, mesmo que esbanjem tinta de marca...
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De Gaffe a 12.03.2019 às 12:19

Nunca o suportei. Nunca o considerei bom jornalista e bom pivot.
As reportagens na Grécia foram lamentáveis. Os seus coletes de guerra são imbecis.
Modela a voz para sublinhar o que quer que seja ouvido ou o que acha que tem de ser marcado a ferro vocal na mente de quem o ouve.
Arrepia-me quando pisca o olho no fim do Jornal.
É abusivo. Acho que é uma espécie nova de assédio!
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De Maria Araújo a 13.03.2019 às 22:39

E eu confio na nossa medicina.
Quanto ao senhor jornalista, irrita-me profundamente, desde sempre.
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De Gaffe a 13.03.2019 às 23:45

É a mais acertada das atitudes. Temos óptimos profissionais na saúde.
Já no "jornalismo" ...

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