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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe modificadora

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.18

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Morrer de amor é sempre um plágio.

Ninguém, depois de Romeu, morre de amor de forma original.

 

Matar - literalmente - por amor, é ocorrência que não existe. As motivações dos assassinos são sempre distintas do nobre sentimento, embora inquérito recente e bastante fiável, nos tenha revelado que uma assustadora percentagem das nossas jovens universitárias admite, aceita e normaliza, uma dose de violência no namoro que exclui aquelas tolices de Mr. Gray. É mesmo pancada sem glamour ou pitada de pimenta.

 

Resta-nos um matar metafórico que consiste nas sucessivas tentativas de levar ao suicídio a personalidade de quem amamos.

 

Somos peritas a tombar de amor por rapagões que colapsam ao nosso encanto, que perto de nós tremelicam, que cavalgam perigos e desbravam mato mesmo sem ordem da Protecção Civil, que esfolam a alma nas esquinas dos nossos desejos, que nos colocam brilhantes no dedo apenso à noiva que somos mesmo sem saber e que aceitam estoicamente os dias em que acordamos desgrenhadas.

Apaixonamo-nos por sacanas, por patifes, por rufias, por génios, por heróis, por deuses que passeiam pela brisa da tarde, por anjos, por demónios e por coisas BOAS - podem não existir coincidências entre as categorias referidas e esta última -, exactamente porque são aquilo que vemos.

No amor, temos sempre a consciência do erro quando o cometemos. Sabemos com clareza que aquela barba estupenda esconde a cicatriz do mafioso, ou que aquela careca é evidente repercussão de santidade franciscana.

 

Matamo-los com amor.

 

O nosso primeiro instinto assassino é aproximar o pobre bicho do animal de estimação com que sonhamos desde a tenra infância enquanto, vestidas de princesas ou de fadas, massacrávamos o pobre rapazinho de folguedos pueris, ao perceber que a varinha de condão não funcionava - a dele, pois que era cedo, embora nos tentem convencer  depois que interessa apenas a magia.

Somos capazes de obter um gatinho a partir de um tigre e um tiranossauro a partir da porcaria do peluche que nos coube em sorte. Conseguida a proeza, o homem por quem nos tínhamos apaixonado, já está morto.

 

O nosso amor, neste fenómeno específico, é uma arma poderosíssima e se a mansidão, a sedução, a manipulação amorosa, ou a nossa nudez esplendorosa - e o que não se diz, por ser secreto -, não funcionam, encontramos sempre os alfinetes em brasa para acabar com a treta.

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10 rabiscos

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De Carlos Berkeley Cotter a 07.03.2018 às 17:38

Este já foi!
Venha o Sr. que se segue...
Um bom dia 8.
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De Gaffe a 07.03.2018 às 17:58

Somos uma espécie de "cangalheiras" muito competentes.
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De Cuca, a Pirata a 07.03.2018 às 20:30

O que fazer? Enquanto eles aprenderam a caçar bisontes, a nós restou-nos a menos nobre tarefa da caça de almas. Se ao menos aperfeiçoássemos a técnica para as caçar sem extirpar...
se souberes de algum workshop dessa modalidade inscrevo-me logo.
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De Gaffe a 07.03.2018 às 20:39

É extraordinário. Sabes que sempre defendi que o domínio masculino que se fez sentir através dos séculos, deixou à mulher a capacidade de manipular o silêncio a seu favor?
É curioso como penso também que esse mesmo domínio, que transformava mulheres em símbolos de poder, em objectos que representavam Casas, permitiu que apenas com essa permissão - e nenhuma mais - se apoderassem durante séculos daquilo a que se chamou "moda".
E repara que não tiveram workshop algum.
:)
Depois os homens plagiaram-nos.
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De Maria Araújo a 07.03.2018 às 20:33

Sorrio.
Penso.
Vou atrás no tempo.
Passou.
Acabou a treta.



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De Gaffe a 07.03.2018 às 20:40

Os alfinetes podem ser fatais.
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De Pequeno caso sério a 07.03.2018 às 20:57

Por mais anos que viva, nunca conseguirei compreender a propensão que tive para me interessar por ...bandidos.
A minha mãe costumava dizer que eu tinha íman para atrair "vagabundagem".
Isto na ótica dela.
Na minha, eram apenas os mais desafiantes que , coincidência ou não, acabaram todos por reparar na minha existência.
Quanto mais tempo a "caça " durasse, mais interessante era.
Assim que reparavam na minha existência, começava a descobrir - lhes " coisinhas " que me irritavam profundamente.
Gajas.
Uma canseira.

; )
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De Gaffe a 07.03.2018 às 22:16

Ser mulher cansa.
Também sou atraída por patifes e sacanas. São atraentes. São sempre fascinantes. Mas tem lógica e razão esta minha inclinação. Dá-me um prazer medonho desconstruir-lhes as "armadilhas".
É muito mais difícil ser-se sacana, ou patife, do que santo. Dá portanto mais prazer desmontar os primeiros. É mais desafiante.
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De Corvo a 08.03.2018 às 13:41

Ora aí está como a menina os enfileira a todos, (barbudos excluídos), na categoria desses bípedes a que Lucrécia diligenciava nunca dar o nome de homens, e Messalina designava pela perífrase de animais de dois pés implumes.
Feliz dia, Gaffe: e, se possível, todos os outros.
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De Gaffe a 08.03.2018 às 16:56

Sempre gostei dos Bórgia. Tive uma cadela chamada Bórgia!

Obrigada, meu querido Corvo. Todos os dias são nossos, mesmo o das mulheres.

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