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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe melodiosa

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.15

sabonete.jpgAcordo com a perna do rapagão pousada sobre as minhas pernas, um braço ensarilhado no meu braço e a cabeça voltada para mim, que adormeci de bruços.  

Vejo-o respirar. Conto-lhe as pestanas no silêncio do espanto de o ter de forma tão absoluta e é na súbita consciência de que o tenho que a tristeza cresce como a chuva.

 

Ter como definitivo seja o que for, é como viajar sozinho quando chove. Morre-se um pouco.

 

Estes amanheceres poéticos duram o tempo de retirar o embondeiro que tombou sobre as minhas pernas e escapar sorrateiramente para o chuveiro onde, por norma, medito sabiamente nas agruras e nos prazeres da vida, enquanto me mantenho fidelíssima ao velho sabonete português redescoberto pelas mais recentes estrelas de cinema.

Embora, diga-se em abono da verdade, sempre tenha considerado perigosas as superfícies escorregadias do ambiente esmaltado, não resisto à molhada sensação de desprendimento ao ter este miminho a deslizar no corpo, unido ao tépido contacto de dedos a borbulhar espuma.

 

Sei que é agradável partilhar o chuveiro com alguém que goste de ensaboar a partilha e reconheço que há muito poucas coisas que me agradem tanto como saber do fácil que é escorregar no banho, sabendo que me posso agarrar a mais do que à torneira, mas as minhas matinais meditações requerem uma pluviosa solidão.

 

Hoje, de repente, meio destas minhas purificações, tive o som de Sinatra espalhado pelo chão e um homem quase nu, com o cheiro da manhã que rasga janelas, bamboleando o corpo, de sorriso dentro dos olhos fechados:

 

For once in my life 
I have someone who needs me 
Someone I've needed so long 
For once unafraid 
I can go where life leads me 
And somehow I know I'll be strong 
For once I can touch 
What my heart used to dream of 
Long before I knew 
Someone warm like you 
Could make my dream come true 
For once in my life 
I won't let sorrow hurt me 
Not like it's hurt me before 
For once I've got someone 
I know won't desert me 
I'm not alone anymore 
For once I can say 
This is mine, you can't take it 
As long as I've got love 
I know I can make it 
For once in my life 
I've got someone who needs me

 

Descubro que as melodias que desato a amar são aquelas que são cantadas por os que me povoam a vida. Nenhuma, absolutamente nenhuma, poderá tocar-me sem primeiro ter pairado e tocado na alma daqueles que me cantam no peito.

 

Não sou Música. Não a sei ouvir como merece, mas sei gostar com tamanha força que mesmo a canção que vejo tem de ser a alma de alguém para que eu a consiga trautear.

 

E trauteio desta vez Sinatra, no chuveiro.

 photo man_zps989a72a6.png


8 rabiscos

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De eduardo a 18.09.2015 às 13:26

O porto é outro planeta
Uma espuma esfoliante ach brito donde brotam livros e desassossegos
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De Gaffe a 18.09.2015 às 13:35

Sobretudo sobressaltos.
:)
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De eduardo a 18.09.2015 às 14:08

Faltou referir que há uma casa da música que é um multilevel skatepark
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De Gaffe a 18.09.2015 às 14:16

Oh! Não diga isso!
É muito menos deslizante, embora trespassada de quando em vez pelos implícitos.
:)
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De Maria Araújo a 18.09.2015 às 18:23


No comment.

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De Gaffe a 19.09.2015 às 17:42

ok!...

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