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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na aldeia

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.18

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Minhas queridas, nunca, mas nunca, se atrevam a visitar uma aldeia pitoresca que nunca vos viu mais novas, com os pés vertiginosamente enfiados no vosso glamour Louboutin.

 

O descalabro espera-vos.

 

Esqueçam a sofisticação do equilíbrio treinado nas ruas das capitais europeias; ignorem a delícia que é ver o pasmo das burguesas pequeninas e adocicadas, que saltitam excitadas na hora da catequese; procurem evitar o orgasmo que é sentir que, perto de nós, a princesa lendária que se espetou contra o poste, é cilindrada pelo nosso merecido cintilar.

Tudo o que é deslumbre, sedução e requinte se eclipsa no segundo em que o nosso pé Louboutin surge à porta do Jaguar para pisar as pedras da calçada.

 

A partir desse momento, tudo é trágico.

 

Se a sola rubra do sapato não pisar pistas biológicas deixadas pelas cabras - e não me refiro às catequistas - e por bois que quase nos enfiam o focinho húmido nas axilas, corremos o sério risco de nos estatelarmos no centro da aldeia, com o tacão cravado num interstício manhoso, numa fenda traiçoeira, nas pedras da calçada, sem termos sequer um garboso matulão Armani para nos amparar a queda. Se não formos mordidas pelas galinhas - falo também das catequistas - e sentirmos o nosso jovial conjunto, Valentino Verão 2017, esventrado pelas garras de gatos psicopatas, acabamos a enfardar chouriços de sangue suspeitando que o interior está recheado com uma das nossas incautas antecessoras.  

 

O campo, minhas caras, é um lugar perigoso para uma rapariga pedante, pretensiosa, afectada e snob como eu. Engana-se quem pensa que as cidades sobrelotadas são ninho de armadilhas, incubadoras de crimes. São as perdidas aldeias no perdido interior de Portugal o Dexter Morgan desta história.

 

Nunca, mas nunca, se esqueçam, na rota das aldeias esquecidas, de incluir nas vossas Louis Vuitton um parzito de chinelos que não vos descalce a dignidade e um rosário. Há que pedir a Deus para que, pelo menos, não se nos estale o verniz.

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10 rabiscos

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De Fatia Mor a 24.10.2018 às 18:22

E atrevo-me ainda a dizer que, horror dos horrores, violentamos o salto no bendito do interstício, ali colocado pela divindade dos calceteiros para nos pôr à prova no verdadeiro amor do mundo: aquele que devotamos ao par de sapatos perfeito!
Misericórdia, senhor, misericórdia.
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De Gaffe a 24.10.2018 às 18:40

Verdade.
De péssimo gosto. Embora a Gaffe não saiba o que é "calceteiros", acha sinistra a existência de interstícios destinados unicamente a destruir-nos os sapatos.
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De Pequeno caso sério a 24.10.2018 às 20:51

Quando uma ' ssoa está destinada a chumbar um pé (ou a reputação ), não precisa de um par de sola vermelha para o conseguir. Basta usar uma daquelas coisas com sola de madeira e alguma graciosidade a sair do carro.
Foi o que me aconteceu...e que levou ao nascimento do blog que tu ajudaste a parir.


Desculpa mas não te imagino de chinelos.

; )

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De Gaffe a 24.10.2018 às 21:12

Tens razão. A reputação é uma ... coisa muito frágil.

Não vais acreditar, mas eu tropeço de chinelos. Tropeço até nos tapetes, até tropeço naquelas coisas à volta das paredes junto ao chão (não perguntes como. Não sei). Prefiro andar descalça.
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De Maria Araújo a 24.10.2018 às 21:59

Eu sou uma mulher prevenida ( às vezes), não levo Louboutin para a aldeia ( também não os tenho.
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De Gaffe a 24.10.2018 às 23:32

Aqui que ninguém nos ouve:
Não perde nada. Caímos para a frente se nos distraímos com aquilo calçado.
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De Corvo a 26.10.2018 às 11:35

Assim paramentada, não é embaraçosa a queda.
Cai com elegância e levanta-se com donaire, a Bela.
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De Gaffe a 26.10.2018 às 11:40

Não, meu querido Corvo, cair com elegância, só aos pés de um homem.
;)
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De Corvo a 26.10.2018 às 12:01

O que para uma rapariga esperta é obra de significativa simplicidade.
Nunca o Ego masculino vai dissociar a premeditação da "irresistibilidade"causadora.
:)
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De Gaffe a 26.10.2018 às 12:27

Meu caro,
o ego masculino sempre dissociou muito pouca coisa.
;)))

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