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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na chuva de Paris

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.19

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Quando chovia em Paris, abrigava-me nos umbrais dos edifícios e esperava. Mantinha-me quieta e inventava histórias nas nódoas de chuva que alastravam nos passeios.

Às vezes fazia muito frio. Nessas alturas, os momentos de chuva a cair apeteciam-me tanto que me esquecia das horas e era capaz de passar, pasmada, todo o tempo do meu mundo a olhar para o chão que se encharcava. Os sons de Paris acinzentavam-se e as luzes chapinhavam nas poças que alastravam.

 

Creio que era feliz naqueles pedaços de chuva estrelados. Abraçava-me, apertava o casaco, amarfanhava a camisola junto ao pescoço e tentava manter os pés quentes batendo com eles nas pedras abrigadas.

 

Lembro-me que tinha umas luvas grossas de pele, forradas, que me aqueciam demasiado as mãos. Nunca gostei muito de luvas, mas aquelas tinham sido dadas pela minha avó e usava-as como quem usa um talismã ou um golpe de saudade. Mantinha as mãos enluvadas próximas do nariz, porque gostava do cheiro do couro misturado com o cheiro da chuva e da memória da minha avó.

Perdi uma no metro. A outra ainda a tenho na gaveta. Vou, de vez em quando, quando não há chuva, procurar o levíssimo rasto de felicidade que, nos umbrais de Notre-Dame, ficava quieta enquanto me abraçava. Havia sossego, como se não precisasse de nada, como se me bastasse, como se estivesse isolada, à parte, e então sentia a Catedral como coisa minha. Só eu e Notre-Dame, nos umbrais molhados.

 

Fiquei uma tarde, já tarde - tão tarde! - segura pela chuva. Fechei o casaco e calcei as luvas, amarrotei o abraço para não sentir frio e fiquei a ver o sossego pasmado. Veio então de novo aquela morrinha que é ser feliz ou pensar que o somos. Procurei as luvas sem me aperceber que já as tinha calçado e não tinha nada a não ser Notre-Dame à chuva e senti a chuva a cair dentro de mim.

 

Quando eu voltar a Paris, não tenho a Catedral e sei que a chuva vai cair lá fora.

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Gavetas:


10 rabiscos

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De Pedro Neves a 17.04.2019 às 10:53

Bom dia Gaffe,
a fotografia que acompanha o post é impressionante. É do incêndio de segunda-feira? E sabe dizer quem foi o fotógrafo?
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De Gaffe a 17.04.2019 às 11:37

Bom dia, Pedro,
Não. Não é de Segunda-feira, mas seria perfeitamente possível. As tragédias deste teor têm lugares-comuns arrepiantes.

A fotografia foi retirada do "Le Figaro" (não sei quem é o autor) e data de Abril de 2009. É italiana. A imagem foi captada depois de um sismo em Abruzzes, que afectou a Igreja de Paganic. Uma estátua da Virgem foi encontrada intacta debaixo dos escombros.
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De naomedeemouvidos a 17.04.2019 às 14:02

Vinha aqui dizer, precisamente, o mesmo que o Pedro.

(Não sei porque ainda me espanto... )
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De Gaffe a 17.04.2019 às 14:05

É uma fotografia absolutamente extraordinária.
Sabia que a tinha de guardar. É transversal a toda a tragédia em que o voo do que em nós é ainda humano se abre e nos esmaga.
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De Gaffe a 17.04.2019 às 14:39

E tão comovente. Tão certa.
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De imsilva a 17.04.2019 às 14:16

Estava preparada para escrever o meu testemunho sobre a Dame, mas tenho lido coisas tão interessantes aqui, que desisti de o fazer. Gaffe, o que escreveste é tão bonito....
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De Gaffe a 17.04.2019 às 14:55

Obrigada.
Mas não é razão para evitar o seu testemunho. Antes pelo contrário. É imprescindível, nestes casos, que se escreva e fale sobre o que nos fere.

(O que é devemos evitar a todo o custo é a indignação gerada pelas doações milionárias a Notre Dame, ignorando os massacres que ocorrem noutros cantos - e são cantos diferentes. A não ser, claro, que já tenhamos contribuído para atenuar esse terrível desespero. De contrário, apetece muito esbofetear quem se limita a resmungar e a rosnar no aconchego do sofá, sem entregar um euro seja a quem e seja ao que for.)

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