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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na estreia

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.15

Saul Leiter     Paris     1959.pngHá tempos alguém disse que há sempre alguém exímio a falar de si, mas que nunca consegue falar de mim.

Esta impossibilidade de nos projectarmos em alguém, este encarceramento em nós, não tocando as algemas dos outros, mas colhendo o que é comum naquilo que é humano, trespassa o que é escrito. Chama-lhe Amor de Vera Lúcia Silva não é apenas a mudez e a surdez do outro que impede a chegada do doloroso lamento de quem é ferido, é também a nossa ausência no outro que nos desespera e endoidece. Choramos sempre de forma humilhante quando o abandono, aquele que sentimos aberto como chaga na pele que já não fecha, nos toca o interior e o expõe à chuva que chega das chuvas que passaram e que sentimos como ilusório refúgio.

Comum ao que é humano, e por essa razão a falar de mim, a narrativa que se aproxima do diário, repele um alegado feminismo que não tem lugar na dor, já que a dor sentida não tem causas. É simples, lugar nu, braseiro e coisa térrea. Não sendo um elogio do que é fêmea, é a voz de uma mulher, portanto é tão feminista como o grito que revela e rasga outras mordaças que nos prendem a alma.

O irromper das pausas é, ao lado da dor descrita, a narrativa do quotidiano externo a si, aquele que se prevê, o intervalo entre sentires magoados. A derrocada é mais nítida quando nos apercebemos da existência dos outros lados na montanha, mesmo quando da montanha seja o lado que tomba o que nós vemos.

Vera Lúcia Silva produz uma narrativa em círculos – ou em ciclos, coisa mais feminina -, que se vão riscando em redor do impiedoso sentir do abandono e que se esbatem por instantes numa dispersão de encontros breves com a ilusão do esquecimento possível e da cura, retornando sempre ao que se tornou para a protagonista o essencial que se vai diluindo num medo de perder a memória do que por fim é quase físico.

Esta lenta consumição, esta inexorável caminhada obscurecida pela consciência da latente loucura, este ameaçar do esquecimento total que se tenta evitar, vão sendo urdidos ao longo da narrativa por uma escrita enganadoramente sóbria, de traições poéticas. É uma escrita agreste e cruel, capaz de nos entregar a vida nua  de uma mulher que, como diz a autora, é tão banal que não passa de uma tipa comum que no Sábado foi calçar umas meias.

 

Hoje, é este a único modo que tenho de a espreitar a ser feliz.

Parabéns!

 

Foto de Saul Leiter

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


8 rabiscos

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De Varufakis a 04.07.2015 às 12:42

Um dia ainda vou dizer... Lá eu já seguia estas miúdas no blog e vou gritar a pelos pulmões " olhem assinem o meu livro!"
Para bens à MJ e a ti por este magnífico "prefácio"
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De Gaffe a 04.07.2015 às 16:54

Não sei se é o prefácio.
:)
Tentei ser objectiva, é tudo.
Parabéns à M.J.
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De Maria Araújo a 04.07.2015 às 23:07

Jamais imaginaria que este post levasse à MJ (já lá fui).
Tontinha, a Gaffe, mas grata.
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De Gaffe a 05.07.2015 às 18:09

Leva à autora, sim.
:)
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De Neurótika Webb a 05.07.2015 às 12:58

Olha, já tinha lido isto!
Tive o prazer de ler o livro antes de ser publicado. Só tenho uma coisa a dizer: nasceu uma escritora!
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De Gaffe a 05.07.2015 às 18:06

E concordas com o que digo?
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De Neurótika Webb a 05.07.2015 às 20:09

Concordo com o que disseste no prefácio do livro, é sempre um prazer ler os teus textos. A última parte, é um assunto que vos diz respeito, mas acho que há uma falha de comunicação que está a causar um mal entendido.
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De Magda L Pais a 07.07.2015 às 12:26

Estou como a Neurótika
o prefácio está fabulástico e é perfeito para o livro em causa. Quanto ao resto, nada que uma conversa não resolva. as conversas são óptimas para acabar com os mal entendidos. Porque é disso que se trata, seguramente. Dum mal entendido

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