Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na montanha-russa

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

Kurt Hutton.jpg

Esvoaçam folhas e pauzinhos. Rodopiam esbaforidas as sebes pelo ar. Abrem-se vendavais no pátio levantando pedras. Correm e voam esgrouviados pássaros depenados e histéricos. Os cães ao longe uivam doridos adivinhando perigo e as portas batem assoladas. Desarranjam-se as simetrias do jardim e as águas turvam-se confusas ensandecendo os peixes que se afogam. Enlouquecem as nuvens, remoinhos, tufões e corrupios, roda-viva, ciclones e tornados e torvelinhos de montanha-russa.

Atira a multidão de caracóis para trás. Sopra naquele que teima em resistir. Perfume a vaguear pelos espaços. Bâton esboroado. Dior esfarrapado. Carteira pelo ar. Pernas trancadas por tacões agulha e olhos cobertos por negros óculos, verdes, negros.

 

- Quero álcool! Quero beber qualquer coisa que mate!

 

Inclina-se e desaba no sofá. Pé nu, sapato projectado no corredor imenso.

 

- Perdi-me outra vez. Apanhei com um camionista a buzinar atrás de mim, como se eu fosse gorda! Demorei quatro horas a chegar aqui aos solavancos! Parei numa tasca para perguntar onde porcaria estava eu e fui quase violada por um homem de bigode! Não fiz xixi porque tive medo de ser atacada por esquilos ou desaparecer num buraco qualquer no meio das ervas! Há árvores por todo o lado! Não há semáforos nem sinalética! As couves batem no tejadilho do carro e aquelas coisas das hortas estão vivas! Fui perseguida por uma galinha aos urros e acabei de calcar bosta de vaca!

- São hortênsias.

- Quem?

- As couves que bateram no carro, são hortênsias. Abriste o portão, calcaste piso enlameado, e entraste por onde não devem, nem podem passar carros. A galinha que te urrou provavelmente foi um ganso. São agressivos e muito territoriais. As coisas das hortas são buchos e não há vacas no meio do jardim.

- Não via aquela galinha há muito tempo. Pensei que podia ter crescido.  E os solavancos, mademoiselle Holmes?! Tive medo de cegar sempre que as mamas me batiam nos olhos quando apanhava poços de ar.

- Não devias ter entrado pelo portão lateral. Sabes tão bem como eu que está vedado aos carros.

- Meu amor, a tua irmã é uma homicida. Teve um surto psicótico quando decidiu bloquear o caminho mais curto para entrar neste mausoléu. Foram quatro horas! Quatro horas até conseguir ver casas ao longe! O Douro aumentou?! Se aqui chegasse e fosse obrigada a andar às voltas mais um minuto, só porque a tua mana acha que sim, que é mais lindo e, ai, que bem que fica, juro-te que não encontravam ninguém vivo. Desesperada, sou como o tarado da Coreia, mas em alto. Engordo ou mato.   

- Oh, tens de admitir que é mais lógica esta organização do espaço. É fácil e habituamo-nos depressa.

-  Também é mais lógico ser sempre eu encarregada pela tua maninha de te arrancar daqui. Jurei-lhe que conseguia, mas descansa. É fácil mandar a tua irmã à merda. Habituamo-nos depressa. Por mim podes apodrecer enfiada no meio do mato.  

 

Se nos sentarmos muito quietos, se tivermos um copo com água por perto, se mantivermos a tranquilidade, a calma e uma atitude bucólica, romântica, cor-de-rosa, repleta de unicórnios e laços de cetim, conseguimos ser absorvidos pela maravilha da descoberta desta mulher estupenda. Nada, rigorosamente nada, é tão genuíno, tão real, tão isento de farsa, tão pouco fantasioso ou disfarçado, como esta histriónica criatura extraordinária. É fascinante olhar o seu poderoso egoísmo, as suas inabaláveis certezas, o seu ego desmesurado e a sua capacidade de embalar estes terrores no maior encanto e sedução que nos deixam rendidos e que nos fazem aceitar o temporal, como se a tempestade ocorresse apenas no copo com água que temos por perto.      

  

- Tragam-me álcool ou cravo o tacão que me resta no meio das vossas pernas.

 

A minha prima chegou, desta vez até muito pacífica, ao meu pobre Douro.

 

Fotografia - Kurt Hutton

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


11 rabiscos

Imagem de perfil

De Rui Pereira a 19.06.2019 às 14:59

Pacífica?!

Um dia destes, respondi-lhe, ironicamente, que conhecia o Douro...
Não conheço.
Mas acabei de conhecer uma excelente anfitriã deste espetacular local, a sua prima.
Boa sorte! ;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.06.2019 às 15:37

:D

Rui, meu querido amigo, prometo que vou tentar impedir que seja massacrado, trucidado e esquartejado quando decidir visitar o Douro.
:)))
Imagem de perfil

De Rui Pereira a 19.06.2019 às 23:01

Minha cara Gaffe,
Vai tentar?!
Se der, deu. Se não der... "eu tentei"!
Obrigado. ;)
Imagem de perfil

De Gaffe a 20.06.2019 às 00:01

Às suas ordens.
;)
Imagem de perfil

De Sarin a 19.06.2019 às 17:34

Ainda bem que as personalidades díspares, talvez não antagónicas mas certamente em antípodas imediações, se encontram num copo de rio em comum. Enquanto olham essa água, que importa se é apenas nesse enquanto!, mergulham em si mesmas e retemperam :)
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.06.2019 às 21:32

Sim.
Apesar dessa disparidade, há uma cumplicidade inquebrável - e repleta de aventuras, de alegrias e tragédias -, que nos une.
Une-nos também ao rio.
Imagem de perfil

De Sarin a 19.06.2019 às 22:07

Isso é família. Não o sangue mas a cumplicidade e a história.
Imagem de perfil

De Gaffe a 20.06.2019 às 00:10

Claro que sim.
Suspeito que se engana quem diz que não a escolhemos. Às vezes conseguimos.
:)
Imagem de perfil

De Sarin a 20.06.2019 às 00:18

Concordo :)
Imagem de perfil

De Pequeno caso sério a 19.06.2019 às 19:51

Adoro as personagens femininas do teu universo . Acho que o vosso ADN é qualquer coisa de espetacular.
Creio que eu e a tua prima nos daríamos lindamente , não achas?
:))))))
Imagem de perfil

De Gaffe a 19.06.2019 às 21:28

As mulheres da minha família sempre, sempre, tiveram uma importância capital. Nunca abdicaram dela.
Creio que as que agora me rodeiam são o resultado disso.

Sim. Creio que iriam gostar muito uma da outra. Até porque são as duas ternas e doces (lá no fundo...)

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui