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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na sombra do rio

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.16

banco.jpgPor entre as árvores, os limoeiros vergados estalam com o peso do perfume.

A seu tempo explodirão mimosas nas alamedas e as sardinheiras de Espanha nas margens da cisterna.

As hortênsias azuis, enxofre e cobalto, rebentarão redondas, gigantescas nos sopés da escadaria principal.

Os jarros, de imaculada cor, copos virgens, adormecidos na presença alva do sossego.

As rosas tornarão agarradas as videiras. Possíveis de imolar na vez das uvas. Sinais de alerta rubros e bravios.

As beladonas decadentes nos frisos de granito da janela. Mortas, as flores e as portadas, as tombadas guilhotinas das janelas.

As cores invadirão a casa, reféns do vento, cativas, secretas dentro da sombra do rio que as ignora.

 

Depois as árvores.

 

As que preservam os braços invadidos por lâminas verdes e castanhas e as outras, de uma nudez retorcida que angustia.

Ao longe, mesmo ao fundo do caminho, os dois teixos medonhos, centenários, mergulham as sombras na planície da água que inverte a paisagem, invertendo os tempos, os compassos de espera em cada batida do meu coração.

 

À janela do meu quarto, a luz vem frouxa. Trepa coada pelo rio que avisto. Há água nas pedras e nos sinistros braços dos anjos corrompidos de asas mergulhadas no lago onde peixes vermelhos mordem os segundos.

 

Esta é a romântica peçonha, a ogiva do desterro e o inexplicável aninhar do esplendor sombrio.

Este é o lugar do tempo à espera, inexoravelmente recolhida, inalterável, transformada em terra.

 

Existe junto à água deste rio um banco de jardim abandonado. Diz a gente que era ali o lugar onde passava o tempo longe, o rapaz esguio, de linho, pés descalços, de palavras raras, sem sorriso.

Sentava as tardes nas sombras, sorvia a frescura como dele fosse a luminosidade húmida das águas e fazia rolar por entre os dedos o destino da terra, como é rolado um terço e ele uma oração repetida em surdina.

O banco de jardim deixou de o ver há muito.

A água às vezes toca-lhe a madeira. Nessas alturas das marés de um rio, o banco do jardim abandonado volta a sentir a lonjura triste do rapaz que passou pela vida como se a vida fosse sombra num jardim ou a oração rolante deste rio.

 

No entanto, por entre as outras árvores, os limoeiros tombam de perfume.  

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


6 rabiscos

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De Maria Araújo a 07.11.2016 às 12:35

Um lugar pleno de natureza, um lugar onde o tempo parece não passar, um lugar de tristes memórias.
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De Gaffe a 07.11.2016 às 12:36

Todos os lugares - mesmo os mais felizes - escondem desenhos de melancolia.
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De Fleuma a 07.11.2016 às 19:46

Gaffe, sem querer ser presunçoso, diria que seria um crasso erro da sua parte deixar que algum dia esta torrente de sombras se apague. Ou pior! Que se esconda. Está em estado puro e por isso imaculado.

Quase conseguir ver por olhos que não os meus é animalesco, eu sei. Mas não é possível evitar.
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De Gaffe a 07.11.2016 às 21:32

Animalesco apenas porque o meu olhar é de uma insuficiência brutal.

O que não consigo olhar aqui, o que olho, mesmo não vendo tudo, é incomensurável.
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De Fleuma a 08.11.2016 às 00:30

Ainda a propósito de ver por outros olhos, uma das pessoas que mais respeito e estimo é invisual de nascença. Um exemplo portentoso do que significa ser um animal atmosférico. Sei que os invisuais de nascimento "observam" pelo toque, pelo cheiro, pela audição e pelo sabor como ninguém. Sabe como me sinto quer pela voz, pelo respirar e até pelo aperto de mão.

Ora, um dos nosso pequenos prazeres proibidos é partilhar um Gin e porque adora livros, gosta que eu leia passagens de livros e autores que admiro. Hoje foram algumas de um escritor que venero em absoluto, Kjell Askildsen e que esta pessoa acha ser demasiado próximo às minhas paixões, demasiado escuras e um pouco "estranhas".

Assim, tomei a liberdade e decidi comprovar algo para ver como reagia. Li as palavras deste post, como forma de observar a sua reacção. Porque como eu adora escrita atmosférica. Li pausadamente. Claramente. E enquanto lia o que escreveu, isto é absolutamente verdade, a sua expressão mudou. Quase em abandono. E sabe o que me disse no fim ? Exactamente isto, " estive lá. Consegui sentir por onde andou."

Nada mais a dizer. A não ser, desculpa pela demora a ler este comentário.
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De Gaffe a 08.11.2016 às 09:51

Não imagina o quanto desesperada fico perante o que não consigo ver ou fazer ver. Há universos completos que me ficam por dizer porque sou demasiado microscópica.

(Agora vou emoldurar o seu comentário)

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