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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na sua vez

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.18

DSC_0076.JPG

Às vezes, apercebo-me que dentro dos seus olhos azulados existe um espeto. Um prego de saudade de algures, ou de alguém que não nomeia. Às vezes, encontro-lhe no silêncio que desenha com o dedo na superfície dos móveis, a brandura e a ausência de gente dentro do peito. Às vezes, descubro-lhe no cabelo de trigo limpo a trança destroçada da tristeza meiga que sem voz aprende a deslizar pelo chão como um cachorrinho amedrontado. Às vezes, vislumbro-lhe o brilho desmesurado, solto daquele orgulho infantil capaz de trucidar os frágeis, os pequenos, pequeninos. Às vezes, apercebo-me daquela melancolia não sei de onde vem, ou para onde vai.

 

Às vezes, faz lembrar hortênsias.

 

A minha sobrinha chega dentro de dias - o ciclo inicia-se -, para passar as férias do Natal no Douro. Antes dela, eu; antes de mim, a minha mãe; antes da minha mãe, a minha avó; antes da minha avó, o passado que é eterno e o passado antes deste, que assim é construída a casa de que sou reflexo.

 

Sei que fico à espera.

Ficaram à minha espera.

 

Agora é a minha vez de a ensinar a perscrutar a terra, a tocar o caule das hortênsias, a aflorar a água do lago, a deixar que as carpas brinquem com os dedos que ao de leve tocam nas escamas das asas do anjo de pedra debruçada; de lhe ensinar a ouvir o virar das páginas das árvores; de lhe ensinar a podar as sardinheiras – em bisel, meu amor, e sempre rente ao chão, que o chão as reconhece; de a fazer repousar nas almofadas das romãs e das maçãs abertas; de permitir que acaricie com a lentidão das patas dos insectos as black lace ainda em embrião; de a fazer entrar em casa como quem entra num corpo; de lhe contar dos avós, do bisavô, da bisavó e de mansinho tentar que a minha comoção se torne nevoeiro na cisterna.  

 

É a minha vez de lhe dizer que uma japoneira morre se ousarmos o transplante. É como viver dentro de um coração. Para de bater, se o desocupamos. É urgente que saiba que não se podem deslocar as árvores das camélias.

 

Depois, e só depois, deixar que a minha irmã lhe ensine como exigir que as jarras as recolham mortas.

 

Fotografia - orgulhosamente minha

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Gavetas:


24 rabiscos

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De Vorph Valknut a 05.12.2018 às 17:07

https://www.youtube.com/watch?v=vqTJMOqn5LU


A few times in my life I've had moments of absolute clarity. When for a few brief seconds the silence drowns out the noise and I can feel rather than think, and things seem so sharp and the world seems so fresh. It's as though it had all just come into existence.
I can never make these moments last. I cling to them, but like everything, they fade. I have lived my life on these moments. They pull me back to the present, and I realize that everything is exactly the way it was meant to be."

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De Gaffe a 05.12.2018 às 17:57

Sim.
Dito de modo mais perfeito.

Sabe que a banda sonora deste filme é uma das minhas paixões?
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De Gaffe a 05.12.2018 às 18:55

É extraordinário!
Quem me faz ouvir música magnífica, são apenas homens!
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De Vorph Valknut a 05.12.2018 às 23:04

Literal, ou figurativamente?

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De Gaffe a 05.12.2018 às 23:58

:)
Literalmente.
São numa esmagadora maioria homens que me fazem descobrir sons que jamais pensei que existissem.

Figurativamente, tenho ouvido músicas extraordinárias oferecidas por todos os sexos.
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De Gaffe a 06.12.2018 às 08:13

Uma belíssima "ilustração" deste texto.
Imerecida, mas tão adequada.
Obrigada.
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De Pequeno caso sério a 05.12.2018 às 22:19

Não sei se já reparaste mas as árvores estão sempre muito presentes na tua vida...


A passagem do testemunho é sempre uma coisa magnífica e rever nos mais novos características nossas é sempre reconfortante. Talvez porque estupidamente acreditemos que deixaremos cá parte do que fomos. E se calhar, deixamos mesmo.
🌼
(queria deixar-te uma hortênsia mas como não tenho, deixo - te uma flor que me é muito especial : Margarida)
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De Gaffe a 06.12.2018 às 00:04

As árvores são fundamentais na minha vida. Sempre o foram. Estão por perto em todos os instantes que me são essenciais.

Não creio que seja capaz de "passar o testemunho". Não sei mesmo se quero ser capaz. Não acredito um instante sequer que mo permitam.

Sou apenas a tia. Vou acabar velha, solteirona e aborrecida, como todas as tias velhas, solteironas e estéreis.

Depois morro e transformo-me num acer.
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De Pequeno caso sério a 06.12.2018 às 00:24

Vais nada.
Aposto que estás mais para tia "fixolas" daquelas que deixam fazer as asneiras todas e as encobrem.
Eu tive uma tia assim e guardo dela as melhores recordações.


Vais nada.
Aposto que vais ser uma árvore enorme cheia de folhas bonitas que se renovarão à velocidade certa para que nunca fiques desnuda. Daquelas que darão a sombra certa para se observar as nuvens que passam. Ou para ler uma história que não é de ninguém mas que todos a sentem como sua.

; )



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De Gaffe a 06.12.2018 às 08:15

Espero que te sentes nos meus ramos. Só para me fazeres companhia.
:)
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De Corvo a 06.12.2018 às 11:44

Mas...O que a Belle Demoisellestá está para aí a dizer?! Solteirona?! Sozinha?!
Nem sonhar!
Está aqui o amigo Corvo que na sua interminável empreitada para melhor este mundo, resolve já isso.
Compra um papagaio, um cão e um gato e o futuro gratifica-a.
O papagaio, bem treinado por um profissional competente, passa o dia a praguejar num vernáculo primoroso, a comer e a cagar.
O cão passa o dia a dormir no sofá, e o gato passa a noite a vadiar por fora.
Como vê, problema resolvido. Sozinha é que nunca! solteirona sim, mas só no nome porque na realidade nem vai dar por isso.
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De Anónimo a 06.12.2018 às 13:43

A maior fera da blogosfera a acabar sozinha, jamais !
Belo texto que invoca o que já dificilmente se sente ou se encontra, o poder do verdadeiro Amor.

WW
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De Gaffe a 06.12.2018 às 16:07

:)))
Tão bonitos estes dois meninos!!!!


As feras, meu caro WW, estão infelizmente destinadas à extinção.
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De Corvo a 06.12.2018 às 18:19

Isso não! Desculpe meter catana em lavra alheia, mas discordo completamente.
As dóceis sim! extinção sem remissão, se é que já não estão todas extintas.
Mas são compensadas. Vão todas para o Céu.
As feras. Ah, as feras. Essas não há força no universo que as destrua.
Transportado isso para a nossa espécie, - porque obviamente estávamos a falar das que predominam nas savanas, :) - então para nós, dizia, encarnam sempre a essência da verdadeira mulher. A contemporânea, entenda-se: nunca confundir com a minha avó, e que é:
Faz tanta falta a uma mulher um homem como uma bicicleta a um peixe.
Li isto não sei onde e acredite que, eu que já pouco ou nada intriga, pasmei de tanta e profunda sabedoria.
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De Gaffe a 06.12.2018 às 19:14

Meu caro Corvo,
Permita que responda com o que diz amiúde o meu querido e velho Domingos:
- Desde que vi um porco a andar de bicicleta, acredito em tudo.
Não estranho se acabarmos a ver peixes nas mesmas figuras.
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De Sarin a 12.12.2018 às 01:20

Refuto. Recuso. Renego.

Ser Tia é também ser um bocadinho Mãe. Assim o disse a minha sobrinha quando tinha 3 anos. E o repete em cada abraço tão dela, o dobro da idade já.

Os áceres também cantam mesmo quando o vento não lhes sopra nos ramos. E as Tias cantam até quando lhes dói a alma ou a garganta. Assim foi com a minha. Assim sou eu. Assim é a Gaffe.
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De Gaffe a 12.12.2018 às 11:34

Talvez por isso, o Outono nos áceres seja a minha estação favorita.
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De Rui Pereira a 06.12.2018 às 10:21

Cara Gaffe,
Uma vez disse que eu era bom pai…
Venho devolver-lhe o elogio.
É tão boa tia!

P.S. - Gosto da fotografia! ;)
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De Gaffe a 06.12.2018 às 16:05

Obrigada, meu querido.
Tenho tentado ser.
:)*
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De Maria Araújo a 06.12.2018 às 22:21

E a sobrinha vai adorar os ensinamentos da tia.
É tão bom, Gaffe!
Jamais imaginei chegar a minha vez de tia avó, de verdade.

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De Gaffe a 06.12.2018 às 23:18

Não vou ter muito tempo para ser a tia que gostaria de ser. Temos de ter em conta que a tutora legal é a minha irmã.
:(
As decisões principais são dela. Eu conto muito pouco.

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