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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe não aceita

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

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Um dos verbos que devia ser abolido do dicionário da alma de alguns é o aceitar.

 

Torna-se obsceno quando é usado na primeira pessoa quando a pessoa é a primeira a usar o que aceitou como arma de arremesso.  

É vulgar - nunca deixando de ser repugnante -, ouvirmos a tentativa de cuspir um insulto com o que horas antes se jurou aceitar com a pia benevolência dos que são caritativos e olham a humanidade com a brandura dos mansos que deles é o reino dos céus.

É nojenta a facilidade com que aceitar o outro se funde a crença na ilusória, com a mentirosa, certeza de que somos bons e que jamais nos imiscuiremos, ou combateremos, o que no outro é diferente.   

 

Aceitar o outro, tem por vezes implícito um minúsculo julgamento feito nos confins da alma de quem aceita.
Quando aceitam não estão a reorganizar o pensamento de forma a que este se adapte ao que não consegue ou que revela dificuldade em compreender ou reconhecer como forma de consciência independente e diversa daquela que possui.


Sentam-se nos seus pequeninos tronos e, magnanimamente, aceitam o outro.

Não o entendem segundo diferentes arquitecturas interiores e recusam ou subtilmente condenam cada acto cometido, porque não é assimilado pelas suas organizações internas, mas, e como são criaturas superiores, aceitam.


O seu irrisório tribunal interno não arrisca declaradamente o perdão, por beata modéstia, mas inclui no aceitar uma parcela de indulgência, envernizada, mascarada de respeito pelo outro.
Aceitar
, dentro deles, traz no bolso um calado sentimento de superioridade, uma velada e inconsciente vontade de domínio, uma escondida certeza de que, o que são, se torna a regra mais conveniente para o equilíbrio planetário.
Julgam o outro quando o aceitam e não abdicam dessa miserável e ínfima sensação de superioridade. Ao aceitar, recusam, recuam e, em última análise, assinam no esconso da alma a moção de censura ou a negação.


Ao aceitar as formas externas ao traçado arquitectónico que reconhecem como seu, são como as anafadas senhoras, de agenda apopléctica e reservado lugar em todas as comissões de avaliação e em todos os plenários ou jurados. Depilam as sobrancelhas para as desenhar depois com traços negros, escondem estampas pornográficas nas páginas batidas do missal e aceitam, soberanamente, superiormente, o outro que também tem direito à vida.


Não consigo compreender estes gauleses... mas aceito-os - diz o Imperador, olhando de soslaio o Axtérix.

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21 rabiscos

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De Corvo a 02.04.2019 às 12:34

Porque há duas qualidades de verdade.
A nossa, sempre clara e transparente que não oferece a mínima dúvida nem contestação. Tão luminosa que até ofusca a visão.
E a dos outros que, pois sim! Não vá a gente precaver-se que depois andamos a lamentarmos-nos pelos cantos. Falsos a abusarem da sinceridade da nossa boa-fé. Por que é que sou dou com mentirosos/as?
Ora como a verdade leva à perfeição, nós somos completos e os outros um manancial de expectativas goradas.
Daí não é de estranhar o significado da célebre revolta no grito da verdade atraiçoada.
"Não te desculpes, nunca te vou perdoar! mentiroso/a! se EU vi isso por que é que tu não viste?"
Acho que é mais ou menos isto.
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De Gaffe a 02.04.2019 às 13:34

Ou seja, só há uma qualidade de verdade: a minha.
;)
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De Corvo a 02.04.2019 às 15:15

Exactamente! só a sua!
E a minha que por coincidência alinha pelo mesmo teor.
Veracidade absoluta mais transparente do que o cristal da madrasta da Branca de Neve.
Os outros...pois sim! Fiar-se a gente na verdade deles e num saco de lacraus não sei qual oferece maior perigosidade.
O que não deixa de ser espantoso saber-se que se equilibram dispersados pelo planeta uns milhares de milhões de bípedes mais ou menos parecidos connosco, e só a Menina e eu sermos os únicos sinceros e transparentes de verdade impoluta.
Triste mundo, este.
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De Gaffe a 02.04.2019 às 16:47

É o nosso fado, meu caro.
Tenhamos coragem.
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De naomedeemouvidos a 02.04.2019 às 12:40

A Gaffe pode juntar-lhe o "tolerar", outra forma sobranceira de "aceitar" aquele que é tal outro.

"Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente, ainda é muito pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro." (José Saramago).

Temo sempre cair nessa armadilha...
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De Gaffe a 02.04.2019 às 13:33

Creio que "tolerar" é mais compreensível, apesar de tudo. "Tolerar" não implica necessariamente este "aceitar" nojento. Tolerar, pode não significar a hipócrita aceitação boazinha. É, pelo menos, assumido que se recusa o entendimento do outro.
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De naomedeemouvidos a 02.04.2019 às 12:49

(apreciei a sugestão de angelical...)
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De Gaffe a 02.04.2019 às 13:34

Perdão, não entendi!
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De naomedeemouvidos a 02.04.2019 às 13:59

Pois, agora que voltei a ler, parece estranho...a expressão tem um "de" completamente desajustado e referia-me àquela pequena alteração da imagem da criação de Adão :(
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De Gaffe a 02.04.2019 às 15:00

Repare que, apesar de tudo, a imagem não retém os gestos muito mais escabrosos que é costume observarmos em relação a esta temática.
:)
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De naomedeemouvidos a 02.04.2019 às 15:05

Absolutamente verdade.
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De Maria Araújo a 02.04.2019 às 14:23

Admiro a sua forma de caracterizar certas senhoras.
E quando as vejo, penso em si.
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De Gaffe a 02.04.2019 às 14:58

:)
Mas não porque acredita que sou parecida, espero!
Repare que nunca escondi as minhas estampas menos próprias.
*
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De Maria Araújo a 02.04.2019 às 15:24

Oh! Nada que se pareçam consigo.
Nem comigo!
Fujo delas.
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De Gaffe a 02.04.2019 às 16:51

Fugimos as duas.
Às vezes, elas apanham-nos ...
:)
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De Pequeno caso sério a 03.04.2019 às 00:08

Sempre me intrigaram as "Donas da verdade". Aquelas que batem no peito e dizem alto e bom som que são como um livro aberto. Que não têm nada a esconder. Que são transparentes. Ah, e que NUNCA mentem...mesmo quando o acabam de fazer com os dentes todos que têm na boca.


Mil vezes.
Mil vezes uma desbocada, bruta e pouco polida a uma "juíza " desse tribunal superior da "aceitaçao" cujas togas cheiram a mofo e tapam os podres mais hediondos.
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De Gaffe a 03.04.2019 às 09:25

E que são muito "frontais", confundindo frontalidade com péssima educação.
Mil vezes.
Mas creio que as duas não se podem sequer aproximar.
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De Corvo a 03.04.2019 às 10:42

Ah! As donas da verdade. Ou os donos da verdade que quando se trata de transparência não me parece haver grande diferenciação de género, eu chamo-lhes "Os Serventuários do Céu"
São aquelas alminhas abençoadas, sagradas virtuosas, sublimes piedosas de corações puros e almas alvas, sempre dispostas a verterem as suas lágrimas pelos pecados do mundo.
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De Gaffe a 03.04.2019 às 11:06

:))
Lembra-se que conhecemos há tempos uma criatura dessas?!

Por onde andará agora o mostrengo? Espero que no fim do mar.
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De Corvo a 03.04.2019 às 11:51

Ah, lembro!
Provavelmente na reforma.
Público nenhum, a criatividade murchou e a vedeta finou.
:)
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De Gaffe a 03.04.2019 às 12:15

Ou desmembrada por centenas de blogs.
:)

Coitada.
Era fofinha, às vezes. Uma espécie de espartilho mental com penas. E eram imensas, as penas.

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