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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe não chora em português

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

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Por amor chora-se demais.

 

Pertence à mulher a maior parte das lágrimas. O homem transcende o mito, manifestando, ao contrário do dito, a sua virilidade quando se afasta da censura que o mantém longe das lágrimas e causa o espanto cantado por Piaf - ... Mais vous pleurez, Milord?! ça je l'aurais jamais cru!

 

É abertamente permitido ao feminino o choro de amor e chora-se sempre pela partida e pela ausência - a traição, o ciúme, a não reciprocidade ou outras razões que quisermos aliar ao choro desta natureza, são sempre metamorfoses do abandono. A mulher, sobretudo a portuguesa, foi sempre a sedentária que ouviu dizer às velhas da praia que ele não voltava. O mar, a guerra e a emigração - que é, em última análise e forçando a metáfora, uma mistura dos dois - sempre forneceu versos ao Fado, que é maioritariamente uma história de abandono de uma mulher que chora a partida ou a ausência do homem que ama - tornando-se por isso o reverso do Tango, em que é sempre o homem a lamentar a perda da mulher amada.

 

Choramos copiosamente, desfazemo-nos em lágrimas, rompemos em lágrimas, chegam-nos a lágrimas aos olhos, choramos todas as lágrimas do corpo, soltamos um fio de lágrimas, ficamos de olhos marejados. Choramos de formas diferentes para públicos diferentes. O choro é também um enviesamento que vai submeter o outro à sua própria sensibilidade, solidariedade ou indiferença. Todas as lágrimas são mais do que palavras, mas acabam por salgar uma exposição quase chantagista impressa no vê o que me fizeram! Vê o que fizeram de mim! Chorar exige destinatário.

 

O choro solitário, o chorar para nós, por amor, torna-nos de forma subtil espectadores do nosso sofrimento. Choramos então porque acreditamos – ou para acreditar - que as dores que sentimos não são ilusórias. Oferecemo-nos um interlocutor de excelência e provamos através do corpo que ultrapassamos a palavra que traduz a possível fantasia. Cumprimos as ordens do corpo apaixonado e permitimo-nos chorar. Em nenhuma língua somos capazes de exprimir o que uma lágrima traduz. Se não somos capazes de o dizer, entregamos a voz ao que está para além da linguagem.      

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, a lágrima é a imagem de todas as palavras que quisermos.  

É só fazer as contas.

 

Foto - Henri Cartier-Bresson

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15 rabiscos

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De Me, myself and I a 20.02.2017 às 11:33

Eu choro muito...acho que até demais!
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De Gaffe a 20.02.2017 às 11:54

Então talvez seja conveniente reler o que tive a maldade de escrever.
;)
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De Me, myself and I a 20.02.2017 às 12:03

É uma bela maldade a que escreves sobre as lágrimas! E a razão de eu deitar tanta lágrima talvez seja a de calar muito!
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De Gaffe a 20.02.2017 às 12:12

:)
Não creio.
As lágrimas estão para além da linguagem ou consubstanciam outra forma de dizer. Digamos que quando choras, "falas", "dizes".
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De Me, myself and I a 20.02.2017 às 12:17

Está bem pensado!
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De Maria Araújo a 20.02.2017 às 12:39

Tenho, para mim, um defeito: chorar de emoção.
Choro de felicidade, de tristeza, de ver alguém sorrir ou sofrer, uma cena de um filme, um anúncio, uma notícia, uma conversa, uma recordação, um post.
Chorar exige destinatário.



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De Gaffe a 20.02.2017 às 13:55

Sim. Mas esses chorares são distintos do chorar por amor. Seria preciso um novo post para os tentar dissecar.
:)
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De Maria Araújo a 20.02.2017 às 17:18


Chorei por amor, também.
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De Gaffe a 20.02.2017 às 19:07

Receio perceber que todas um dia choramos.
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De Corvo a 21.02.2017 às 11:23

Grande coisa.
Para chorar Deus vos abençoou! Uma salto partido, uma unha quebrada, um perfume para arrasar e afinal vai-se a ver até a mulher da faxina usava, uma ida ao cabeleireiro e que, horror dos horrores, passou sem reparo.
Enfim, as terrificantes tragédias que compõem a vida das mulheres.
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De Gaffe a 21.02.2017 às 11:25

:)
Tão oportuno o seu comentário!
... e tão engraçado.
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De Pequeno caso sério a 21.02.2017 às 00:14

Tenho uma relação...esquisita com o choro.
Raramente o faço e não me sai gratuitamente naquelas situações mais expectáveis.
Depois, do nada, sou capaz de me emocionar com uma banalidade em que ninguém repara.
Não suporto quem faz m____@ e depois usa o choro como porta de saída.Fico passada e aí sou capaz de pôr essa 'ssoa a chorar mas dessa vez, com motivo.

(as coisas em que tu me fazes pensar)

;)
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De Gaffe a 21.02.2017 às 11:25

Repara que apenas falo do choro por amor.
Não sei dos outros.
:)
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De Cuca, a Pirata a 21.02.2017 às 19:54

Chora-se muito a pretexto do amor. Mas, no fundo, no fundo, será que aquilo que se chora não é de autocomiseração?
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De Gaffe a 21.02.2017 às 20:29

É sempre. Sobretudo no choro solitário.
Chorar com publico tem uma componente chantagista que não podemos desprezar.

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