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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no fim da vindima

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.15

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Ao almoço, no Douro do fim das vindimas, a mesa de toalha branca, luminosa, enche-se de vozes.

 

As janelas são rasgadas, abertas, veludos afastados, presos por argolas de ferro e ferrugem. Despojada da sombra, a luz vem tímida tocar o barroco do centro de flores e de frutos. 

As mulheres fazem tilintar talheres que desconhecem, pratos e sopeiras, molheiras, galheteiros, jarros e garrafas velhas de cristal. Há tremuras no ar e rodopios do vento dos aventais bordados. Há correria e nervoso, resmungos das velhas e murmúrios das outras. Um homem sorri, gengivas sem dentes, ao ver passar a pingadeira, onde o arroz fumega depois de servir de base ao cabrito. Escaldou os dedos à mulher blasfema.

Os estilhaços de copos de tacão alto fazem tremer a mais novinha, criança ainda, desengonçada e loira. Que saia daqui que só atrapalha! Que saia dali, com cabelos loiros e olhos de amêndoa, a menina tonta que largou o copo de cristal antigo e pé de cegonha nas tábuas do chão.

 
Corre, corre, corre que chegam os homens!

Corre, correr, corre que entram na sala e a senhora não está para os receber!

Corre, corre, corre que tens de a chamar!

Corre, corre, corre, menina que parte os copos antigos. Não vás a chorar.  


Os homens almoçam na mesa coberta por toalha rara. Os homens já falam. Perderam o medo dos talhares confusos e dos copos altos raiados pelo vinho. Perderam o medo da menina rica vestida de azul ao lado do irmão com olhos da cor do vestido dela. Aquela a que chamam, num sussurro ínfimo, menina de fogo e que lhes pisca o olho sempre que se enganam e que troca os garfos como eles os trocam ou que principia antes de os trocarem para não haver mais trocas na mesa.  


Corre, corre, corre, corre e rodopia, menina de fogo! Vê muito depressa como tudo é claro.

Roda, roda, roda e vai ver num instante como tudo é simples nos olhos dos homens que trazem toalhas de linho e bondade pousadas nas almas, de linho lavrado, estendidas frescas num tempo passado.

 

Não vás a chorar.

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Gavetas:


8 rabiscos

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De Paula a 09.10.2015 às 10:16

Fui transportada para "A Cidade e as Serras"!
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De Gaffe a 09.10.2015 às 10:20

Não devias, não devias. É sempre uma viagem atribulada.
:)
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De Paula a 09.10.2015 às 10:30

Mas que começa no "202, Champs Elysées"
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De Gaffe a 09.10.2015 às 10:42

Numa "odisseia" inversa à minha.
:)
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De Maria Araújo a 09.10.2015 às 12:40

Em cada história do Douro que leio nesta avenida, imagino a azáfama em "downstairs" e cenas de uma família de tradição "upstairs" equiparado a Downton Abbey.
A roda, que roda, a menina que salta a corda sem parar (como eu adorava saltar à corda) a roda da vida, numa avenida cheia de histórias para contar.
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De Gaffe a 09.10.2015 às 13:37

Ah!
Não! A minha família é muitíssimo mais destravada, caótica e psicótica.
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De Corvo a 09.10.2015 às 13:41

Lindo!
Todo um mundo desconhecido para mim.
Ah! Mas conheço outros mundos, onde as mandíbulas do jacaré me puxam para dentro do rio.
Mas prefiro este que mostra. Muito mais perfeito. Incomparavelmente! Meninas a saltar, mesas para o jantar e sem dúvida, vinhaça da boa a acompanhar.
:)
Um bom fim-de-semana.
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De Gaffe a 09.10.2015 às 13:42

Obrigada, meu caro e bom amigo.
O vinho, paradoxalmente, é do Alentejo.
:)

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