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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no fio das palavras

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.17

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As palavras deviam ser como instrumentos cirúrgicos prontos a dissecar a alma.

 

As minhas não passam de rombos grosseiros na pele da penumbra. O que dizem, escolhidas à toa, não chega sequer para sonhar entender os mecanismos mais simples dos universos interiores de quem por mim passa. Às vezes, a frustração de não poder dizer a alma dos outros, atinge-me e reduz-me à mais ínfima partícula de nada. Nesses instantes, a percepção da minha impotência diminui-me e transforma a minha mais ténue luminosidade num minúsculo e insignificante ponto de luz, tímido fósforo fraco, a ameaçar o bosque inacabado e inacabável dos sentidos, a tentar aflorar brevemente as tábuas das almas.

 

Misturado com as resplandecentes clareiras e desenhos do sol no solo, é desprezível o fio que vou tecendo, como se de um fio de aranha se tratasse, sem qualquer capacidade de formar a teia e sem aranha e sem insecto e sem lugar onde prender o início e sem qualquer gota de sol que nele se rebata.

 

Nestes momentos de mísera incapaz, as palavras ficam sem abrigo. Nesses instantes eu odeio os livros.

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4 rabiscos

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De Fleuma a 19.01.2017 às 16:19

Imagine chegar a casa após uma noite de trabalho demasiado intenso para que consiga explicar. E conseguir ler este "fio das palavras". É estranhamente catártico e quase força a mente a abrandar o pensamento.

É uma verdade cristalina, que as palavras conseguem dissecar a alma. Não deveria duvidar disso Gaffe. Lembro-me que uma vez me disse que as minhas palavras mutilam, facto real e por isso é necessário que afirme que as suas são bálsamos necessários para que eu consiga aceitar que não devemos apenas rasgar. Destroçar é fácil, para mim. Dissecar enquanto se cura é toda uma outra arte.

Touché!
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De Gaffe a 19.01.2017 às 16:25

A sua última frase é extraordinária! Sobretudo essa.
Não imagina como acerta. Cortar para curar é parte substancial da minha vida e nem sequer estou a falar de alma.
:)
Concordo consigo. Destroçar é facílimo. Difícil é ser o autor do golpe a cicatrizar a ferida.
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De Cuca, a Pirata a 19.01.2017 às 21:26

O problema não estará certamente na tecelã. É que a linguagem que inventámos é claramente insuficiente para descrever algumas almas.
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De Gaffe a 19.01.2017 às 22:57

Não sei. Há pedaços de alma que sei que deixo escapar por inépcia.

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