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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no início

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.19

François Morellet.jpg

 

O risco era traçado a lápis sobre papel vegetal, cosido depois com pontos largos no linho. Era lento o processo de cobrir o desenho com os fios desfiados, retirados do pano, ou com os que sobravam da feitura da peça em teares caseiros, pequenos, sem largura, que impediam a construção de toalhas de mesa.

Só de rosto.

O desenho vegetal era coberto lento. Folhas de carvalho entrançadas em flores desconhecidas. Rosas trespassadas por ramos de oliveira. Malmequeres abertos sobre tulipas tombadas em cálices pálidos que se raiavam de cinza do lápis que indicava a rota.

Depois de retirado do interior com o bico da agulha os restos macerados de papel, era lavado o bordado findo, e, ainda húmido, passado a ferro. Do avesso, sobre uma tábua almofadada, para que o bordado a cheio não espalmasse.

- Nunca me ensinaste a bordar a cheio, Jacinta.

Baixo relevo.

A toalha que procuro nas gavetas largas, muito finas, quase rasas, do móvel com margens de madeira canforada, onde em papel vegetal dobrado adormeceram princesas de linho e renda e fios de seda com jardins picados lentamente ao longo da lonjura das agulhas dos tempos perdidos, é maçã de outras eras.

- A dos baptizados foi bordada por mim que a que embrulhou a mãe da menina estava num fio. Serviu toda a gente desta casa.

A dos baptizados dos meninos. De linho grosso, caseiro, de tear estreito que só dá para o rosto, tem os monogramas a cheio dos que protegeu, que os meninos da casa são baptizados nus.

- Foi a avó que fez todos os riscos.  As iniciais da menina estão aqui. Bordei-as eu com os fios que arranquei à peça de linho que deu a toalha, que nada sobrou em novelo depois dos dois primeiros.

As iniciais do meu nome - ao lado dos inícios da minha irmã, do meu irmão -, em linho caseiro. Grosso, rude e agreste, rugoso e rígido princípio. Nu, a cheio que nada sobrou depois dos primeiros.

- A avó da menina quis assim e que se lhe há-de fazer? Nem um froco, nem um remate bonito. Só as letras a cheio. Esfiapa com o tempo. Não parece de baptizado, assim tão áspera.

- Tu sabes que sim, Jacinta.

- Sei, mas ao menos uma renda, um entremeio. Dava mais leveza, dava mais vida. Às vezes, basta um pedacinho de luz a meio do caminho.  

 

Imagem - François Morellet

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Gavetas:


12 rabiscos

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De naomedeemouvidos a 28.11.2019 às 13:33

Adoçaste a minha alma. A minha avó não bordava, mas, tricotava como uma Deusa. Tenho as gavetas cheias de memórias idênticas. Toalhas e Colchas de linho, amorosamente adornaras de rendas finas, a duas agulhas, como nunca fui capaz de aprender. Em contrapartida, posso guardar, sentir e lembrar. Sempre.

Um beijo grande.

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De Gaffe a 28.11.2019 às 13:42

Creio que na minha família apenas as segundas filhas aprendiam a bordar.
As primeiras, noutras linhas se cosiam.

Não sei bordar, apesar de pertencer ao grupo das segundas. O tempo tornou o bastidor menos importante, mas sei coser, sei coser noutras mesas e lugares.
;)

O móvel aqui falado é lindíssimo e está repleto de memórias bordadas. Há sempre tempo de cheirar a alfazema adornada pela cânfora. É um aroma muito estranho, mas que alio sempre a gavetas fechadas com tesouros dentro.
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De naomedeemouvidos a 28.11.2019 às 18:30

Eu gosto dessa alfazema :))
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De Gaffe a 29.11.2019 às 10:06

É encantatória.
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De Sarin a 28.11.2019 às 14:10

Quem primeiro tomou conta de mim que não minha mãe ou avó fez-me rendas: para vestidos, toalhas, lençóis... uso-os por ela. Foi no seu colo que aprendi a cantar o Malhão.
Não estão em gavetas canforadas. Mas têm a memória do cheiro dos seus jardins.

Há tradições finamente bordadas no sangue. Ainda bem que as tens :)
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De Gaffe a 28.11.2019 às 15:12

Tenho.
Cuido delas como de jardins. São-me essenciais.
*
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De Maria Araújo a 28.11.2019 às 15:28

Uma bela recordação de como era a vida doutros tempos, que tudo se fazia em casa.
Tão doce, Gaffe!
Aprendi a bordar, alguma coisa, fazer tricô e renda.
Tenho algumas peças feitas por mim.
A minha mãe sabia de tudo um pouco.
Lamentavelmente,e porque não tenho nada, nem sequer fotografias, porque dava tudo, nos anos 70, tive um vestido e um macacão tricotados ela, foram das peças mais lindas que vesti.
O que resta são algumas peças em crochet feitas pela minha mãe, outras por mim.

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De Gaffe a 28.11.2019 às 15:32

Mas repare que esta situação não provém de tempos idos.
Estava à procura de uma toalha para a mesa de Natal. Tem de ser preparada com imensa antecedência. O passado é tornado presente a cada passo.

A Jacinta não deixou passar o tempo sobre estas memórias.
:)
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De Maria Araújo a 28.11.2019 às 15:39

Imagino que sim.
A Jacinta é uma mulher do caraças ( desculpe a palavra, mas é com carinho).
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De Gaffe a 28.11.2019 às 15:50

:)
Mas é mesmo!

É do Douro. Todas as mulheres do Douro são do caraças.
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De Pequeno caso sério a 28.11.2019 às 22:17

E dizes tu que não tens nada para nos dizer...

Ficas a saber que quase me sentei aí ao vosso lado a cheirar essas toalhas e memórias. Estou cada vez mais fã da Jacinta.

; )*
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De Gaffe a 29.11.2019 às 10:05

Ficas bem ao nosso lado!
:)*

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