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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no jantar

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.14

Quando descobriram que o jantar marcado com a jovem promessa da política nacional coincidia com o agendado há muito com a minha avó, cometeram o primeiro erro: arrastar o jovem promissor para o festim privado, alegando o conforto do caseiro e mais interior ambiente.

A minha avó gosta de surpresas e saltitou contente perante a hipótese de ornamentar a mesa com o colorido de inesperadas curiosidades.

A jovem promessa da política nacional traz consigo a esposa, loira platinada e explosiva, e o rebento, imberbe adolescente de calças caídas seguras por cinto agarrado às ancas.

- Então, meu caro, diga-me o que é que eles lhe ofereceram, para o obrigarem a aceitar depois?  Pergunta a minha avó fazendo cair um gato morto no centro da mesa, mesmo em cima do arranjo perfumado e oval.

A resposta é grandiosa e chega mesclada de pedaços de ética e de bem-fazer, unido ao espírito de missão e compromissos de honra. O jovem político tem o futuro já bem planeado.

- Agrada-me saber que já aceitou o que quer que seja que lhe tenham oferecido.  Cai um rato morto. É uma maçada quando há hesitações. Não imagina o tempo que se perde quando os meninos resistem.

A mesa parece querer sorrir e disfarçar. A minha irmã tenta desviar as atenções atirando para o ar brevidades esvoaçantes relacionadas com Planos de Desenvolvimento e com inibições ecológicas apensas.

- Não lhe dê importância, meu caro! A única preocupação ecológica da minha neta é que não haja uma lagarta morta na salada. Cai desfalecido um hamster.

Inquieta com tanta mortandade, a minha mãe tenta socorrer mudando de assunto - e socorrer é sempre um desastre na boca da minha mãe:

- Espero que a Z. lhe seja útil. Fico tão contente por lha ter cedido.

Cai a mãe do Bambi estatelada.

- Nem imagina como! Tenho despovoado a casa de tarecos que nunca tive coragem para destruir. Tornei-me uma aliada incondicional do pequeno desarranjo da Z. Agora partimos, as duas, tudo o que sempre desejei ver transformado em cacos, mas que não me atrevia por causa do barulho.

O jantar sorri. Tenta disfarçar. Há guardanapos soltos e os copos tilintam.

- Ah! Já Entendi! - vira-se a minha avó para para a jovem promessa da política nacional - foi o meu caro amigo encarregado de partir os pechisbeques que ninguém consegue escacar sem fazer ruído?! 

E cai um elefante sobre a sobremesa.

 

Nesta famíia, quando se convidam estranhos, deve-se sempre evitar os florais centros de mesa.

 

Imagem - Willem van Aelst (óleo sobre tela)- 1675

 photo man_zps989a72a6.png


2 rabiscos

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De Sarin a 17.06.2019 às 15:26

De-li-ci-o-so!
A tua avó usava lenço amarelo - e percebe-se, o branco destoaria. :))))
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De Gaffe a 17.06.2019 às 16:23

A minha avó adorava amarelo. Dizia sempre que nada poderia ser tão desesperante para os seus "convidados" menos agradáveis do que ter a acidez de um lenço amarelo limão ao pescoço.
:)

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