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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no paraíso

rabiscado pela Gaffe, em 10.03.15

Rick Finkelstein.jpgA Gaffe sentada na esplanada do seu contentamento, ouve inadvertida duas adolescentes que para espanto seu trocam impressões em viva voz acerca da vida, mesmo tendo os telemóveis à mão de semear e SMS gratuitas.

- Quem me dera viver na Idade Média! Pelo menos não tinha de ir à escola. – Informa a que só não tem espinhas nos olhos.

A Gaffe fica arrepiada.

As pobres desconhecem por completo que mil anos de falta de luz são uma maçada e que a net era na altura bastante mais lenta. É verdade é que os cabeleireiros eram bem melhores do que os actuais, basta ver as cabeleiras das heroínas das séries onde os protagonistas masculinos usam collants e disparam setas de janelinhas muito Siza Vieira; é verdade que Yves Saint-Laurent deslumbrava num início de uma carreira promissora; é verdade que se comia mais verduras, mas não é de todo agradável os hotéis e as estâncias de Inverno não possuírem lavabos para uma rapariga retocar a maquilhagem.    

 

Depois, há formas mais actualizadas de não se ir à escola.

Um petiz que a Gaffe conhece na aldeia deixou de ir à escolinha com a desculpa de não ter dinheiro para o autocarro e que para ir pelo seu pé tinha de se levantar às cinco da manhã. É evidente que a balela não tem fundamento. Sobra imenso tempo ao pai! O homem está desempregado e podia perfeitamente levar o rapazinho na carripana que apesar de tudo ainda mantém. A tradicional expressão desculpas de mau pagador é neste caso mais do que acertada. A Gaffe suspeita que a falta de apoio que o homem lamenta desesperançado se deve ao facto de não ter feito descontos para a Segurança Social durante o período em que tal lhe era exigido. Valha-me Deus! Nem toda a gente pode ser primeiro-ministro! Não há forma do povo se convencer disso?

É lógico que se as suspeitas do Mestre se confirmam e o Paraíso for uma espécie de biblioteca, esta gente está condenada às penas do Inferno. Embora tal consubstancie um facto muito incómodo, pois que deixamos de ter pessoal competente para limpar o pó aos livros, pelo menos ficamos com a consciência tranquila sabendo que entregamos a felicidade a duas adolescentes, tendo em conta que no Inferno ninguém ensina nada.

Só é de lamentar neste processo todo que se esbata nos corações desta gente a noção da grandiosidade portuguesa que subsiste na memória da saga marinheira de outras eras, pese embora a tenacidade com que os poucos heróis que nos restam defendem a sua permanência hasteando a bandeira impermeável da nossa glória náutica nos cascos de submarinos.   

 

Foto de Rick Finkelstein

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


6 rabiscos

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De Lizzie Bennet a 10.03.2015 às 15:07

Minha querida, estes miúdos de agora, têm desculpas para tudo.
Quando chegarem a adultos é que eles vão ver que a realidade é dura e crua.
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De Gaffe a 10.03.2015 às 15:53

Não só de agora. Lembro-me que também tinha desculpas para tanta coisa!
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De Fatia Mor a 10.03.2015 às 19:36

A necessidade aguça o engenho. Quem sabe essas alminhas não descobrem a forma de viajar no tempo até à idade média para não terem que ir à escola?
Fora de brincadeiras e muito francamente, eu acho que falhamos redondamente na capacidade de demonstrar a instrumentalidade da instrução aos jovens... E depois sobram as desculpas!
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De Gaffe a 10.03.2015 às 19:46

Não sei se falhamos redondamente, mas que estamos a cometer erros brutais está mais do que comprovado.

Às vezes penso onde, daqui a uma década ou duas, encontraremos, por exemplo, os filósofos deste país?!
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De *Nightwish* a 11.03.2015 às 21:00

Se estivessem na Idade Média não estariam na escola de certeza... talvez numa fogueira mais próxima, ou com a cara enterrada na lama, mas na escola não. Situações muito mais agradáveis, suspeito...
***
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De Gaffe a 12.03.2015 às 08:37

Se estivessemos na Idade Média um terço da minha família corria risco de vida, porque é ruivo ou canhoto.

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