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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no pedestal

rabiscado pela Gaffe, em 25.06.15

Vargas - 1920.jpgConta a minha avó que em tempos ido uma das suas amigas favoritas ao passar por uma chapelaria – Chapéus de senhora e cavalheiro – no Porto, na velha rua de Stª Catarina, se encantou com um busto feminino que na montra ostentava um magnífico chapéu com duas penas negras.

Entrou e confessou que por aquela cabeça de boneca pagaria o que lhe fosse pedido.  

A moçoila do balcão, encarregada da loja, firmou que era peça que não estava à venda, troçou do excêntrico desejo e gosto da senhora e perante a sua insistência decidiu calçar chinelos, traçar o avental e aproximar a chapelaria das bancas do Bolhão, ali tão perto.

A senhora saiu de mãos vazias.

 

Meses depois comprou a chapelaria e despediu a mulher.

 

O busto era dela finalmente.

 

Por manigâncias do destino que se tornam enfadonhas referir aqui, tenho-o agora na sua peanha Arte Nova pousado na mesa de vidro.

Para além da sua indiscutível beleza guardada nos olhos lânguidos, nas ondas de madeira do cabelo, na boca breve desenhada pelo batom rigoroso e nos adornos subtis que identificam a corrente artística que a esculpiu, a cabeça agora sem chapéu esconde a história da mulher que perdeu o emprego por ousar negar com alarido vender aquela peça.    

 

Sei-lhe o nome, porque foi o nome dado à mulher do busto. Chamava-se Luísa. Não sei mais nada. 

 

Aquando do sorteio, os deuses raramente retiram a bola branca que dá acesso a alguns a quase tudo sem restrições ou constrangimentos, mas são largamente generosos quando constroem estas minorias e brutais com os que restam.

Sou suficientemente fútil e superficial para passar ao lado das grandes dores sem queimar as asas da minha indiferença, recuso equacionar todas as tolices do Universo e, embora não se perceba muito, não sofro de grandes angústias existenciais.
 

No entanto, ao olhar para a Luísa, dói-me sem eu saber porquê o abismal e tenebroso buraco vazio que se ergue daquela peanha Arte Nova.

 

Ilustração - Alberto Vargas - 1920

 photo man_zps989a72a6.png


8 rabiscos

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De Fatia Mor a 25.06.2015 às 11:25

Nunca deixo de ficar impressionada com estas histórias de pedestal. Eu própria conheço uma, semelhante. Fico petrificada por ver até onde vão as vontades humanas e a sua desumanidade. Há quem queira tudo porque pode ter tudo. Mas as maiores virtudes humanas não podem ser compradas ou possuídas desta forma. É o que nos vale...
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De Gaffe a 25.06.2015 às 11:40

Não poderão?
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De Fatia Mor a 25.06.2015 às 11:49

Pessoalmente, acho que não. Nem as maiores riquezas do mundo poderão trazer-nos as maiores virtudes humanas. Essas normalmente nascem entre aqueles que menos têm (com as devidas excepções).
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De Gaffe a 25.06.2015 às 11:53

Vou acreditar nas tuas sábias palavras, embora seja uma optimista de luto.
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De eduardo a 25.06.2015 às 16:31

olá,
desta vez apenas me alongo nos comentários para dizer que percebo perfeitamente o tom da história.
de imediato me senti envolvido por um, pelo menos, manequim encarnado desses dois ou três que costumam embelezar as montras da globe , que me agradam porque sim.
tive que pesquisar o significado de peanha.
bjs
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De Gaffe a 25.06.2015 às 16:38

:)
Fico contente por lhe ter proporcionado, mesmo que pequena, uma base sólida.
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De Maria Araújo a 26.06.2015 às 16:00


Será que na actualidade há histórias destas?
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De Gaffe a 26.06.2015 às 16:25

Foquei-me nesta para evitar uma demasiado actual.
;)

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