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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no primeiro beijo

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.18

2016-03-28-March-Revolver-PingPong-Styleinsider-09

De corpos imóveis se faz este beijo.

Nenhuma superfície de pele será tocada. A nudez não tem lugar a não ser a do silêncio e a da lentidão das bocas. O primeiro beijo é a um abeiramento, não é uma invasão. Exige a contenção das árvores que adivinham o momento de cortar a vida às folhas, a segurança das raízes que reconhecem o húmus e a estabilidade da seiva que corre de acordo com o batimento do Universo.

 

O primeiro beijo constrói-se primeiro nos olhos. É do olhar que parte a boca.

 

Abeira-te do que será beijado. Que o teu corpo iniba todo movimento de modo que a imobilidade seja comum aos dois. Percebe então a pele do que se prepara caminhando-lhe pelos caminhos do rosto. Aquece os teus olhos na curva do nariz do que vai ser beijado, no dealbar dos lábios, no início das pestanas e no sulco nasal onde poderás deixar as tuas íris. Sente-lhe o morno sopro das narinas e quando sentires sem ver o latejar da boca que te espera, aproxima a tua devagar. Não cegues. O primeiro beijo é sempre um beijo aberto para o visível. Nunca penetra nos jardins fechados e caóticos do negro em paroxismo. É um beijo de jardim geométrico e fatal.

 

Os teus lábios afloram o espaço que pertence aos lábios do beijado. Ao milimétrico espaço de um suspiro. A tua boca vai mimar o voo de um insecto que hesita no pousar, que ronda as duas pétalas e que receia a morte naquela flor carnívora.

 

Roda o teu rosto, mas mantém a boca o centro fixo do inclinar que oscila. Os teus olhos devem perceber as estrias dos lábios que te esperam e a tua língua antever as labaredas. Não toques. Procura os batimentos do peito no latejar dos olhos daquele que te quer. Permanece na busca das linhas húmidas da boca do outro.

 

Saberás do beijo quando no oscilar lento dos teus lábios encontras o desistir dos olhos do beijado.

 

Nunca percas a consciência da fragilidade do insecto. A força de um voo em fuga depende da envergadura das asas, por isso teme o encarnado que carnívoro vibra à tua espera. Lembra-te que quando a flor se abrir terá de estar rendida. Benévola será então na tua língua.

Quando adivinhares o pulsar do húmido que te chega aos lábios, a tua língua tocará no bolear da boca do beijado. É a pata de um insecto. Tem disso consciência.

 

Se aquele que beijares tremer e desistir da vida para ta entregar coberta de saliva, saberás então que aprendeste e todas as outras lições já podem começar.

 

Foto - Christer Strömholm- 1960

 

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20 rabiscos

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De Corvo a 26.01.2018 às 16:41

Lindo, Gaffe.
Profundamente sublime, plenitude da hominalidade dos sentidos.
Mais do que o beijo na doce boca carmesim que húmida se entreabre desejosa e aquiescente, a carícia avassaladora daquelas subtilíssimas emanações que perfumam o ar respirado pela pessoa amada.
Felizes de todos/as a quem o supremo privilégio do expoente máximo do amor, (beijo) é tão encantadoramente concedido.
Só eu fui um infeliz sem paralelo, devo ter sido, nas delícias incomensuráveis do primeiro beijo, por si tão deliciosamente descritas.
O meu primeiro beijo, aliás, nem isso porque foi dela; quem mo proporcionou, aos dezassete anos, e ela exactamente o dobro da minha idade, seguramente desconhecia as deliciosas subtilezas que o beijo encerra porque foi de tal maneira avassalador que fiquei elucidado para toda a vida.
Tanto que creio que daí até hoje pouco ou nada o melhorei.
Um excelente fim-de-semana
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De Gaffe a 26.01.2018 às 19:24

É paradoxal este beijo. Frágil como a asa de um pequeno insecto, permanece como o aço.

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