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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no Tibete

rabiscado pela Gaffe, em 22.05.18

Estou a ler um livro sobre o Tibete - de Sogyal Rinpoche - e emperrei no capítulo que descreve de forma que considero clara e concisa a filosofia subjacente ao conceito de vida e morte.

 

Não vou sequer discorrer sobre o assunto, porque não tenho capacidade para espirrar o que quer que seja perante a magnificência do que ali é referido, mas há um pequeniníssimo pormenor que me deixou perplexa e que me atrevo a referir aqui.

Diz o volume, a certa altura, que entre o impacto do reconhecimento de um drama ou de uma tragédia, de uma alegria ou de uma felicidade extrema - entendamos drama e tragédia, alegria e felicidade de acordo com as nossas subjectividades -, e as reacções que provocam, existe um instante em que a nulidade surge aliada a uma impotência com características universais e transversais. Ficamos absolutamente vazios nesse brevíssimo instante que poderá não durar não mais do que décimos de segundo.

 

Esta absoluta nulidade, esta nudez, não é nada mais do que a Libertação. O facto de durar um tempo ínfimo, permite a imediata invasão do raciocínio e da emoção correspondente ao facto ocorrido. 

Está na aprendizagem do prolongar deste vácuo o segredo dos mestres tibetanos. É neste espaço que procuram a existência e é neste intervalo oco que colocam a vida, isentando-a e expurgando-a. 

 

Tudo isto pode não passar de um apontamento insultuoso perante a esmagadora sabedoria dos mestres tibetanos, mas talvez não seja disparatado pensar que seriamos considerados um bando de autistas, ou dignos de internamento compulsivo, ou com elevadíssimos défices cognitivos se, no Ocidente, desatássemos todos a aprender a flutuar nos intervalos da chuva.

 

No Ocidente não nos molharmos é circense. 

 photo man_zps989a72a6.png

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4 rabiscos

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De Cecília a 22.05.2018 às 15:03

é libertador, sim.
se atentarmos bem teremos a coragem de perceber que já vivemos alguns momentos de libertação.
mas acabamos sempre por voltar à segurança da miséria du soleil.
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De Gaffe a 22.05.2018 às 16:00

Não creio que os tenhamos vivido. Pelo menos estes. Os tibetanos.
:)
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De Anónimo a 22.05.2018 às 15:22

Tivesse eu lido este seu post antes e talvez me tivesse poupado a uma pequena dissertação sobre o quão hábeis somos - não só nós, os ocidentais, creio eu -, em dissimular as restrições invisíveis que criamos, a calar os precipícios irreais que o nosso espírito doente nos faz ver, de tal forma estamos convencidos de que existem as impossibilidades em que acreditamos.

Impontual
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De Gaffe a 22.05.2018 às 16:00

Fui ler. Claro que fui. Às vezes é urgente o que escreve.

Estranhei o modo como parece que se completam.

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