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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nocturna

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.19

Bórgia.jpg

Recupero hoje uma memória.

Às vezes parece-me envelhecida, longínqua e atenuada pelo enrugar da espiral do tempo. Erro meu, que o amor é ardente e má é a fortuna.

Queria muito que fosse partilhada com o meu queridíssimo Fleuma, porque raros são os homens que me ensinam a chorar.

19-10-2014

 

Quando o meu avô morreu, a Lua chorou um choro baixo. Um fio fino e transparente de lágrimas que durou dois dias e duas noites só findo quando a minha avó lhe entregou a manta de lã que o meu avô usava para cobrir as pernas nas tardes do jardim mais frio.

A Bórgia foi arrastada para a jaula.

Não mais dormiu aos pés da cama. Deixou de entrar em casa, a não ser para farejar a cozinha à espera que alguém se comovesse com o olhar de súplica do monstro e lhe oferecesse a provar, à revelia de todos os conselhos, ordens e recomendações, um naco de carne que a Jacinta tempera com alho, vinho, cidra e ervas aromáticas.

Facilitou durante bastante tempo a entrada das visitas. Se antes se tornava um perigo tê-la solta quando na casa havia gente alheia aos seus domínios, era fácil depois fechar-lhe a porta e gradear o bicho.

 

Quando a Lua adoeceu, a Bórgia acordou prostrada. Chamaram-na e ela não veio.

Fomos esbaforidas e aflitas de encontro às velhas amigas.

 

- Deus nos valha, menina, que a cadela piorou tanto.

 

Bórgia.

A assassina doida que esfacelava móveis e esfarelava as carnes dos incautos, subitamente velha agora nos meus olhos, que velha é há tanto tempo aos olhos dos que a temem, perto da Lua entristecia. Ninguém a conseguiu retirar do lado da amiga.

 

Trouxemos o veterinário.

 

- Que tossiu sangue, Senhor Doutor. Piorou tanto!

 

O homem entrou para observar a Lua adoecida. Saiu depois inútil, desolado. Acompanhava-o a minha avó que em silêncio ouviu o veredicto. A minha querida Jacinta atrás, a tropeçar nas pedras e a amarfanhar com as mãos o avental e a dor.

 

Lua treme, inquieta. Tosse e cospe sangue.

Abre cavernas na minha garganta e faz o fel golfar enchendo tudo.

 

Eu ali de pé, ali cravada, muda, seca, hirta, ressequida?

Abro a porta e entro e de joelhos abraço a cadelinha, a beijo a soluçar.

A Bórgia a ganir muito de mansinho.  

Deixo de saber se é sangue ou se é o meu cabelo que se espalha na manta que foi do meu avô.

 

Lua morreu de manhãzinha.

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Gavetas:


2 rabiscos

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De soliplass a 06.02.2019 às 20:55

É por estas coisas escritas, sentidas e contadas que é um encanto vir aqui cara Gaffe. O nossa relação e estima para com os nossos animais é algo de surpreendente que nos leva por vezes a descobrir facetas da nossa personalidade que, não fora essa estima, talvez ficassem por desvendar ou que nós próprios nunca descobriríamos.

Lembro-me de uma notícia de um jornal norueguês de 2013 que relatava a aflição de um homem para salvar o seu cão mordido em lugar ermo por uma víbora. Por quilómetros e quilómetros o homem carregou o cão (Charlie) às costas. Não me lembro quantos nem consigo agora abrir a página do jornal (só os assinantes o conseguem), mas recordo ter ficado impressionado com aquele trabalho de sísifo, a distância impressionava. Mas mais impressionava (mesmo a mim que sou um indíviduo forte e resistente) quando vi o tamanho do bicho: pode ver a foto aqui: https://ancorasenefelibatas.net/2013/05/25/a-noticia-o-homem-e-o-cao/

Quando vi aquilo pensei: ora bem, a gente estima muito os animais, mas quanto? Ali estava quantificado em metros, quilos, joules ou wats o quanto poderá ser aquilo que estamos dispostos a fazer por eles por retribuição da fidelidade.

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De Gaffe a 06.02.2019 às 22:18

Talvez o cão seja o dono, a projecção, o reflexo, de tudo o que o homem foi perdendo, da instintiva humanidade que se abandona como inútil. Não carregamos o cão, levamos aos ombros tudo o que de transcende já perdemos.
E vale a pena. A alma nem sempre foi pequena.

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