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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nos festivais

rabiscado pela Gaffe, em 04.03.19

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Admito que me passou despercebida a edição deste ano do Festival da Canção. Tive mesmo de recorrer à memória dos aparelhos para ouvir e ver o vencedor. Concentro-me neste, por não ter conhecimento dos restantes.  

 

Diz-me um entendido bastante irritado que os instrumentos tocam num tom diferente daquele que Conan Osiris usa para cantar e que essa discrepância arranha e arrepia ouvidos mais conservadores e mais clássicos. Em seguida sublinha - num discurso que não me cativa - o desencontro ente a melodia e a harmonia na canção do intérprete levemente steampunk. Salvaguarda a consciente intenção destes factos, mas rejeita o resultado, reservando, no entanto, a clara possibilidade de vitória dos telemóveis no Eurofestival, exactamente pela estranheza destes desencontros inabituais e pela amálgama de timbres que correm pelo fado, pelo Magrebe, pela Andaluzia, pelo tecno e por onde o demo perdeu as botas ao fugir da canção das meninas do ano ultrapassado.

A letra da canção é igualmente inesperada - não tão parva como uma primeira leitura faz parecer -, mas esse factor não conta quando temos a coragem de traduzir os representantes dos outros países eurovisíveis.

 

Contrariando a opinião muitíssimo favorável que formei quando das primeiras vezes ouvi a voz fascinante de Conan Osiris, desta vez o homem, que alguns afirmam ser um cruzamento entre Amália e Variações, não me arrancou grande aplauso.

 

Aborreceu-me. Senti-me uma criaturinha ameaçada pelos bichos da estranheza.

 

É evidente que achei mimosa a inclusão mal engendrada de elementos steampunk nos visuais dos rapazes, mas assumo que senti um ligeiro desconforto - preconceituoso, como é evidente -, ao assistir à dança do muito bonito rapazinho que acompanha o correr da canção com alguns passos autodidactas.

 

Desliguei-me em definitivo da ocorrência logo após o discurso um bocadinho apatetado do intérprete. Já não há paciência para novas versões de Salvador Sobral.

 

A possibilidade de vitória - ou pelo menos de uma bela classificação -, de Portugal no certame deste ano em Tel Aviv - não sejam parolos, escreve-se desta forma, não unindo Tel, Monte, a Aviv! -, não é de descartar. Conan Osiris surge como aquele elemento anómalo que desperta sempre a atenção do público quando encontrado numa cadência repetitiva de componentes iguais.

 

O acontecimento Telemóveis permite forçar a ousadia de se fazer a ligação a alguns acórdãos judiciais actuais que brotam da Bíblia - às duas ocorrências é dado igual destaque e igual importância nas redes sociais, logo a minha desfaçatez não gera anomalia.

A melodia não está em consonância com a harmonia, o tom da orquestra não é concordante com o tom do intérprete e o resultado - sejamos brandos - não é consensual. Temos indícios dos velhos tempos de Amália nas duas situações, temos Variações que causam algum dó e sobretudo encontramos alguns artefactos em comum - que num caso cobrem as bochechas e no outro os olhos; que num caso seguram o queixo, no outro deixam que o queixo nos caia; que num caso são performance de falanges artísticas e que no outro fazem com que as falanges, as falanginhas e as falangetas de facínoras continuem a ser armas e crimes cobertos por colarinhos jurídico-legais.

Evidentemente que se num caso damos graças e exultamos por termos a vantagem de Conan Osíris andar a trair com outras Evas musicais as clássicas normas orfeicas instituídas no templo e no tempo de Adão, no outro devemos dar graças pelo facto dos acórdãos se basearem na Bíblia - que apedreja - e não no Código de Hamurabi, só um bocadinho mais atrás, que condena as adúlteras à morte por afogamento. Uma morte bem mais limpa.

 

É evidente - apesar de não o ter ainda referido -, que existe mais um elo útil entre estes dois casos. Se não conseguirmos ouvir Conan Osiris, temos sempre à solta a possibilidade de nos romperem os tímpanos à chapada.  

 

Ilustração - Anton Semenov

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8 rabiscos

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De André Maria a 04.03.2019 às 12:28

Conan Osiris é no mínimo estranho. Isso é o ponto fundamental para a nossa sociedade actual. Somos milhões de pessoas repetindo os mesmos formatos e padrões, por isso quando são quebrados conceitos conseguem-se atenções!
Neste momento tem mais valor e mérito um individuo que aposte em cantar uma coisa que marque pela diferença, mesmo que a diferença seja a coisa mais parva e sem sentido possível, do que um talento vocal e uma boa letra.

O festival da canção e o Eurovision Song Contest estão actualmente formatados para a "inclusão" e orgulham-se disso! Portanto, por que não esperar mais uma vitoria portuguesa?


Ps: A sonoridade desta musica é muito discutível, mas o resto até doi! :D
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De Gaffe a 04.03.2019 às 13:22

Sim. Concordo.
Gosto francamente de Conan Osiris. Gosto do timbre vocal. É-me indiferente a alegada estranheza. Afinal, a função do rapaz é tentar seduzir-nos com o canto. Comigo consegue.O resto são assessórios. Parvos, alguns, outros talvez menos, mas mesmo assim descartáveis.
O bailarino custa muito a compreender.
:)
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De Maria Araújo a 04.03.2019 às 14:00

Não gosto de ver o Festival da Canção.
Por acaso, vi a votação, decidi ouvir a interpretação de Conan Osíris, gostei de o ver no Cinco para a Meia Noite, gostei da conversa, desconhecia a canção, fui ouvir a canção no youtube.
Gostei da voz, somente.
Mas como a diferença é apelativa, quiçá obtenha um bom lugar.
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De Gaffe a 04.03.2019 às 14:37

Sim.
Tem uma voz interessantíssima e acredito que arrancará um lugar de destaque.
:)

Afinal, "o resto são cantigas".
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De Pequeno caso sério a 04.03.2019 às 22:08

Para além da polémica.
Para além da música.
Para além do bailarino.

Para além disso tudo, o que me inquieta é saber o que é que utensílio de cozinha irá ele levar para o festival.
; )
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De Gaffe a 04.03.2019 às 23:27

Desde que não use utensílios do wc...

Sabes que até simpatizo com o movimento steampunk, mas aquilo ficava bastante aquém, se a intenção era sobrevoar a ideia.
:)
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De Rui Pereira a 04.03.2019 às 23:57

Gosto da música, da voz, do experimentalismo, da fusão...
O discurso pejado de estrangeirismos, chateia-me um bocadinho...
Que cante!
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De Gaffe a 06.03.2019 às 11:01

Sempre receei as fusões na música. Raramente me soam bem!

Que cante e, se possível, que encante.

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