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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num desencontro

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.15

sophie-litvak.jpgChego ao Porto demasiado tarde.

Desço sozinha a Avenida do Brasil. É quase noite. É tarde. É tudo junto e mal iluminado.  
Não gosto do mar quieto como se espreitasse em surdina o desalento. Não gosto dos candeeiros frouxos, pardacentos, com luzes doentias, laranjas esmagadas imaturas. Não gosto do rapaz que me persegue, como um pedaço de vidro que encontrei na rua. Não gosto dos carros rompendo em ruído a desilusão parada no caminho. Não gosto de sentir. 

 

Tenho frio. Tenho tanto frio! 

 

Lembro-me de respirar fundo, profundo, sem fundo na tristeza de me ver sozinha.

Lembro-me.

Lembro-me da tabuada monocórdica e vou pelo caminho trauteando: 
2x1=2 
2x2=4 
2x3=6

Até chegar ao nada.


A rua passa por mim encharcada.

A razão da rua passar é minha imobilidade à beira da água.

 

Vejo uma mulher de impermeável a entrar num carro. O guarda-chuva tem camélias estampadas e uma vareta partida como a imobilidade com que a vejo passar a rua. A minha visão é um guarda-chuva florido quebrado que deixa a água entrar na minha inércia.

 

Penso-me quieta.

 

A acalmia do estar imóvel é a ausência do sentir. A indiferença com que olho a mulher de impermeável e de guarda-chuva quebrado,com camélias estampadas, é a minha apropriação da rua, a ilusão de a não ver a passar.

 

Olho e a mulher entra no carro. Deixou o guarda-chuva preso à estrada.

 

Encontramo-nos nas palavras que escrevemos. Debruçamo-nos nas grades de uma letra ou nos vidros de uma outra. Nos arcobotantes que sustentam as paredes dos fonemas, nos claustros dos sílabas, nas eixos e nos segmentos de outras rectas, nos arcos e tangentes, nas ogivas.

 

Se escrever o nome de uma flor, de um bicho ou o nome das águas que passam por aqui, ou da terra, ou dos pássaros, o que tu leres é já a flor que não escrevi, o bicho, a água ou o pássaro que não vi a voar na ausência de papel.

 

Posso escrever camélia. Encontro-me contigo longe da Avenida que chove e na inexistência do perfume. Escrevo camélia e a flor escrita é de um vermelho pálido. A tua é branca. No entanto existe no papel apenas a palavra. É uma camélia diferente das estampadas no guarda-chuva quebrado. 

 

Posso deixar de escrever camélia, se o quiseres. Não nos encontraremos mais numa palavra. Deixaremos de ter o vermelho pálido ou o branco das pétalas da flor por escrever.

 

Mas em segredo saberemos que a camélia existe.

 

Na foto - Sophie Litvak por G. Dambier -1953

 photo man_zps989a72a6.png


23 rabiscos

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De M.J. a 12.10.2015 às 11:26

Às vezes só as palavras não chegam para os grandes encontros. Porque Às vezes, só as palavras são pedras.
Já o dizia Virgílio Ferreira, num livro de capa amarela que rabisquei até À exaustão.
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De Gaffe a 12.10.2015 às 12:00

A origem dos grandes encontros está nas palavras.
Não se erguem grandes encontros sem na raiz se construírem palavras. Depois, pode mesmo haver silêncio.
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De Paula a 12.10.2015 às 12:52

Porto cinzento!
Nunca estive lá, sózinha! Mas já me senti sózinha lá!
O poder das palavras é intenso!
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De Gaffe a 12.10.2015 às 13:42

O Porto sabe ser triste.
:)

Sinto uma tristeza enorme pelo meu Porto triste que vou deixar em breve.
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De Paula a 12.10.2015 às 13:45

Mudança de vida? Na vida?
Às vezes é preciso faze-las! Mas o Porto fica sempre na memória!
Agora, mesmo com chuva, apetecia-me passear na foz!
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De Gaffe a 12.10.2015 às 13:46

Retorno à minha vida.
:)

A Foz é tão triste agora!
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De Paula a 12.10.2015 às 13:49

Mesmo triste, gosto! O meu equivalente será passear no paredão entre Estoril e Cascais e sentir as gotas de água salgada na cara!
Lavo a alma!
Um retorno tranquilo à tua vida é o que posso desejar!
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De Gaffe a 12.10.2015 às 13:59

Espero retornar tranquilamente.
... e levar gente dentro.
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De Paula a 12.10.2015 às 14:00

Ena!
:-)
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De Gaffe a 12.10.2015 às 14:02

Não!
Não é isso que a menina está a pensar...
Gente dentro, é a população que levo no coração.
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De Paula a 12.10.2015 às 14:04

(estamos ambas na hora de almoço, tá visto)
Mas claro que somos todos "nós" (eu, a presumida a incluir-me, claro)
Mas ena, na mesma (passe os falsos pressupostos)!
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De Maria Araújo a 12.10.2015 às 17:43

O outono é perfeito em causar estes estados melancólicos.
Gostei de ler os comentários deste post.
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De Gaffe a 12.10.2015 às 17:49

O Outono é um patife.
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De Corvo a 13.10.2015 às 08:46

Este Outono não é patife nenhum. É até um porreiraço de Outono.
Sol e calor; que mais exigir.
Depois tanta tristeza nostálgica por partir, abandonar o Porto como se fosse algo irreversível na vida de um ser feminino, tipo inclusão à vida num convento.
Então, sobretudo na vida de uma rapariga... esperta, não se inclui que quem vai volta, quem viaja para lá também viaja para cá. Ou não é?
Em todo o caso; tudo de muito bom no que quer que pense ou faça. :)
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De Gaffe a 13.10.2015 às 09:25

Não sou muito dada a mudanças de estação e o Outono pesa imenso no meu humor.
A viagem tem sempre um ar de definitivo. Mesmo subtil ou imperceptível, existe sempre um traço com que se rabisca a palavra Fim.
:)
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De Cinisga a 13.10.2015 às 08:39

No domingo passeei no Porto e ao virar no fundo de uma rua passei por uma menina de casaco amarelo (adoro o amarelo), tinha cabelo ruivo e lembrei-me da Gaffe. ;)
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De Gaffe a 13.10.2015 às 11:31

Se foi no Domingo depois das 20.00 horas, a probabilidade aumenta.


O problema das ruivas é este. É avistada uma, são avistadas todas.
;))))
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De Cinisga a 13.10.2015 às 14:34

O problema desta foi sem dúvida o casaco amarelo que trazia, que depois me levou à cor do cabelo, mas foi bem antes das 20h... o que me fez pensar se seria ou não a Gaffe foi o evento que iria decorrer ali perto! ;)
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De Gaffe a 13.10.2015 às 15:00

E seria ou não?
;)
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De Cinisga a 13.10.2015 às 15:08

Hum...não sei, esta ruiva ia acompanhada, o que aumentou as minhas dúvidas! :))))
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De Gaffe a 13.10.2015 às 15:58

Não era eu.
:)

Se fosse, não terias dúvidas.
;)
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De Cinisga a 13.10.2015 às 16:13

Verdade reconheceria a Gaffe sem qualquer dúdiva! ;)

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