Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num incêndio pequenino

rabiscado pela Gaffe, em 11.05.15

bomb..jpgA história conta-se num ápice.

A rapariga desditosa, pobre e perseguida pela mofina, tenta a todo o custo transcender a miséria a que foi votada pela triste sina e, qual açucena virginal, romper o lamaçal para onde foi lançada pela triste vida repleta de pais pobres e de irmãos desempregados.

Apela à solidariedade, a bondade, a compreensão e à carteira, quer dos seus leitores, quer de contactos avulsos que vai intimando. O sonho cerceado de continuar o seu percurso académico e o seu desejo de ser publicada, fazem-na esquecer que usa, por distracção ou por cansaço – evidentemente – um corrector ortográfico que foi agente do KGB e que continua predisposto a destruir a ortografia portuguesa e que Londres, local que escolheu para fugir à miséria dos que lhe recusaram a tão urgente bolsa de estudo, não está propriamente uma coisita barata.

A festarola começa.

Multiplicam-se os incêndios nas redes sociais, as palmas e os incentivos, replicam-se posts, publicam-se apelos no facebook. Há exortações e hinos pelo ar que reconhecem o mérito de quem sofre tragédias que ninguém compreende a não ser vivendo, há o sonho que não se pode perder, a luta que se deve travar, a vitória dos perseverantes, há a acesa condenação de quem se atreve a duvidar de tão elevada e gloriosa atitude. Há mesmo quem lhe dê conselhos de carácter literário, não querendo perceber que jamais a pequena leu um livro. Há que arrancar a vítima das garras da má sorte. Há que vestir a farda dos bombeiros.

Há um festival de bandeiras, uma quermesse da tupperware.  

 

Descobre-se por fim que a angélica heroína é uma vigaristazita que montou há três anos um esquemazito foleiro de angariação de fundos à pala dos agentes da passiva. Vai criando e apagando blogs com lamentos diferentes, mas objectivos iguais. Já teve pé boto, os pais entrevados, já esteve doente, já foi preterida por não ser bonita, já foi marginalizada e sofreu sevícias e tudo o que mais se quiser, porque foi de tudo, desde que este tudo permitisse seleccionar por fotografia as tralhas da solidariedade.

 

Esta predisposição para se ser vigarizado através deste esquema, primário, tosco e mais do que evidente, é mais comum do que se pode pensar e tem raiz, não na credulidade, na falta de juízo ou na cegueira selectiva dos que nele tombam, mas nas suas vaidadezinhas e no irresistível apelo do brilho das montras deste simulacro de solidariedade feita de distância e de facilidade.

É banal, perante a fotografia da menina pobre ou do rapazinho soterrado ou aterrado, trágica porque isso nos dizem de modo subliminar ou não, criar ondas de choque alapando o rabo gordo da indignação e da revolta no banquinho ou na poltrona onde se levantam imagens de grandes comoções.    

 

A comoção não ergue bandeiras solidárias em nome do que está distante. A consciência de longínquas tragédias apenas desperta uma cómoda solidariedade, uma interdependência de poltrona que vai sussurrando ao ouvido a beleza de sermos tão bondosos. Ninguém se comove realmente com um comando na mão e o que está escrito na fotografia da tragédia é o desenho das lágrimas que se querem ver. Narram as histórias que se querem vistas, antes mesmo de as podermos visualizar. Embrulham-nos as comoções que se desejam sentir para de rabiosque alapado se despejem textos solidários repletos de incendiadas e escandalizadas bandeiras de papel.     

 

A Comoção exige a nossa presença.

Exige as nossas mãos na lama, os nossos olhos na ferida e a alma trágica a sentir a nossa impotência e o desespero a tentar acreditar que não pertencemos ao lugar que dói, que presencialmente dói, e que dele queremos fugir em aflição, sabendo que é exactamente por o querermos recusar que percebemos que só a ele pertencemos.

 photo man_zps989a72a6.png


15 rabiscos

Imagem de perfil

De Magda L Pais a 11.05.2015 às 11:32

Eu própria não diria melhor :D
Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 11:44

Dizes sempre muito melhor!
:)*
Imagem de perfil

De Magda L Pais a 11.05.2015 às 11:56

não concordo. mas pronto. :)*
Imagem de perfil

De css a 11.05.2015 às 11:37

Já estive em ambos os lados da barricada: 10 anos com as mãos enlameadas e outros tantos com eles limpos a bater num teclado.

Pese embora ter-me cruzado com a existência do engano em ambos os mundos, continuo a acreditar que o erro não está em ser generoso, mas em fazer dessa generosidade um erro.
Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 11:43

Não existe generosidade quando provém de vaidadezinhas tolas ou de atitudes patéticas de redecoração de imagem.
Imagem de perfil

De css a 11.05.2015 às 12:01

É verdade, assim de repente, ocorrem-se bastantes exemplos.
Porém, e acredito que felizmente, não vou presumir que todos os enganados o são por esse motivo.
Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 12:12

Não. Creio que não.
Mas se nos enganamos de modo tão "laparoto", alguma partícula sórdida entrou na engrenagem.
Imagem de perfil

De M.J. a 11.05.2015 às 12:13

"A comoção não ergue bandeiras solidárias em nome do que está distante. A consciência de longínquas tragédias apenas desperta uma cómoda solidariedade, uma interdependência de poltrona que vai sussurrando ao ouvido a beleza de sermos tão bondosos. Ninguém se comove realmente com um comando na mão e o que está escrito na fotografia da tragédia é o desenho das lágrimas que se querem ver. Narram as histórias que se querem vistas, antes mesmo de as podermos visualizar. Embrulham-nos as comoções que se desejam sentir para de rabiosque alapado se despejem textos solidários repletos de incendiadas e escandalizadas bandeiras de papel."

sempre senti isto. nunca fui foi capaz de o descrever.
Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 12:17

Já o disseste.
Disseste-o muito rabugente e tão mal disposta que nem te apercebeste.
:)))
Imagem de perfil

De Corvo a 11.05.2015 às 15:08

Cara Gaffe, boa tarde.
Nem sequer presumo a veleidade de poder acrescentar qualquer coisa mais ao brilhante descritivo com que elucidou quem teve o privilégio de a ler.
Como o mesmo privilégio não me assiste, apraz-me, à minha maneira, tecer uma ou duas considerações sobre o assunto
Tanto quanto a história memorize, metade do mundo sempre viveu à custa da outra metade.
Mas quando uma vigaristazinha de meia tigela, a todas as evidências diminuída ao expoente máximo do nível menor de intelectualidade de um insecto movimenta uma onda de solidariedade pela sua causa numa comunidade de gente adulta, responsável e pensante; convenhamos que é obra.
Assombroso! Verdadeiramente notável! Como é possível que pessoas adultas, responsáveis, letradas; muitas, não duvido; licenciadas e ocupando cargos de responsabilidade nas suas vidas profissionais, se solidarizem e apoiem, e, sobretudo acreditem, que meia dúzia de euros angariados com a venda de uns livrecos permitam uma vida de formação universitária em Londres. Impressionante! Esta não só é obra como é uma obra-prima de e inalcançável grandeza.
Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 15:19

Creio, meu caro Corvo, que a única explicação que encontro está referida no post.
A vaidadezinha de nos vermos bondosos tantas vezes mascara a indiferença completa.
Ninguém se interessou realmente pelo caso e acredito que todos suspeitaram das narrativas patéticas, mas foi mais forte o desejo de mostrar solidariedade a toda a prova. Somos "solidários", seja a que preço for.

Estou em crer que este tipo de atitude advém da necessidade de nos ouvirmos a "empurrar" tristeza.
Imagem de perfil

De Corvo a 11.05.2015 às 15:31

Ah! A..."empurrar" tristeza.
Iluminou-se-me o espírito!
:)
Resto de uma boa tarde.
Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 15:33

Fico muito alegre.
:)*
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 11.05.2015 às 21:52

Fiquei boquiaberta com estas palavras tão bem escritas, que nem sei o que escrever, isto é, sei, porque, logo no início, altruísta que sou (reconheço que chega a ser defeito meu) comprei um livro.
Não me arrependi, contudo.
Mas o que me indignou foi a persistência, o saltitar aqui e ali, as muitas reações e favoritos na nossa página Sapo blogs, e outras pequenas coisas que me puseram de pé atrás.
Não desejando mal nenhum à miúda, fez-me confusão a sua escrita, a sua ortografia, o seu sonho, o seu desejo de escrever um livro.
Não comento mais nada pois este seu post diz, com muita eloquência, tudo aquilo que define uma pessoa oportunista (nem imagina o quanto me custa escrever isto).
Sem mais palavras.


Imagem de perfil

De Gaffe a 11.05.2015 às 23:21

Lamentável.

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui