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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num Inverno passado

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.16

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Aproximem-se comigo da janela. Afastem os cortinados de brocado escuro e ouçam o barulho ríspido das argolas de metal. Depois vejam comigo. Não quero filtrar nada. Eu digo quando quiser ficar sozinha.

 

É Inverno. São seis horas da manhã. A luz é um cinzento infante tímido lá fora. Chove devagar. Uma poeira apenas.

No terreiro o grupo de homens reunido tenta afastar o frio batendo com os pés no chão de lama e esfregando os braços com vigor. Um deles tenta aquecer-se soprando bafo quente na concha formada pelas mãos unidas. Trazem samarras com golas de pêlo ruivo de raposa, calças de fazenda grossas e imperfeitas e botifarras velhas, corrompidas. Um deles tem um gorro de malha mesclada que lhe distorce a cabeça, aguça-lhe o crânio.

Ouvem o homem alto, destacado. Traz vestido um impermeável preto, almofadado, com a textura de borracha. Demasiado largo, rectangular, pela coxa. Os punhos revirados soltam pombas brancas que esvoaçam no gesticular das mãos que apontam os destinos dos que o ouvem.

Tem um trapo cor de terra enrolado ao pescoço. Uma tira enorme de tecido que lhe esconde o queixo, calças de bombazina preta que se enfiam nas galochas com solas cor de lama e cano que reluz húmido e negro.    

 

Agora uma mulher tosca e rude e grossa, aproxima-se do grupo. Traz aberto um guarda-chuva grande, de cabo de madeira escavacado. Procura abrigar o homem de galochas que de repente se volta contra ela e se agiganta. Afasta o mostrengo e berra-lhe. Daqui percebo o medo da mulher que recua atarantada. Quase tomba. Os homens desviam o olhar. Um deles afasta-se do grupo e do bolso retira o maço de cigarros. Depois a brasa de um, no meio do cinzento.

 

Disperso o grupo, o homem de galochas fica só, ali parado.

 

A chuva tenra, a lama e um homem só, parado ali, até sentir a água a tocar-lhe as mãos agora sem sentidos. Começa a andar. Deixo de o ter então ao meu alcance.  

 

Conseguem ver?

 

Agora sim, quero ficar sozinha.

 

Não sei o que se deu ali. Não faço ideia, e este desconhecer dá a liberdade de poder atenuar todos os gestos. Transformar em águia as ordens que humilharam. Podia mesmo descrever a cinza da manhã como pronúncia de um Douro que de agreste e abrupto perde cor. Podia olhar o homem das galochas e entregar-lhe a vertical postura de uma árvore. Podia olhar por mim, sem vos mostrar ou descrever apenas o que de dentro vi sozinha.

 

Nada em nós é tão seguro como o saber que não há almas isentas ou impolutas. Sabemo-lo de cor, de coração inteiro, e às vezes temos medo do desgosto, da prepotência, da tirania agreste e quase violenta e da mais crua e nua dor que provocamos mesmo sem saber naqueles que nos querem, mas que não queremos.

 

O homem de galochas que comigo viram talvez seja um decepado. Cortaram-lhe os sentidos. Talvez sinta apenas fantasmas de emoções. Talvez seja a terra dura que por ele sente e que com ele dorme e dentro do sono lhe conta o que tem dentro, do que a morte lhe entregou para guardar, ou talvez não ame quem o ama, pois é desta forma que se torna fácil fazer brotar do chão da alma a maldita flor da ingratidão.  

 

Passaram as seis horas da manhã daquele Inverno. Já não chove e tudo é simples.

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Gavetas:


2 rabiscos

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De Fleuma a 30.08.2016 às 14:57

Assumo desde já, a minha inclinação por textos assim. Negros ou tingidos de cinza, como alguém me falou há uns tempos atrás. Comentei num outro post que gosto de atmosferas. Acrescento que se forem de amanheceres escuros e inverno obscuro, ainda melhor.

Cuidado Gaffe, este é o tipo de escrita que deixa a maior parte da gente muda. Porque fala de sombras e escuridão. Longe, muito longe de tanta inutilidade.

Um brinde.
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De Gaffe a 30.08.2016 às 16:07

Não tem importância. A mudez que provoca pode também ser a da indiferença.
A sombra, às vezes, agrada-me muitíssimo. Disfarço muito bem.
:)

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