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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num pregão

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

Fabien Delaube.jpg

A mulher passa no passeio da Avenida e vejo-a passar de canastra à cabeça. Sem mãos, como eu mais pequena passava na Avenida de bicicleta, também sem mãos no fio do equilíbrio.

Peixeira de coturnos pretos sem pregão, que levas à cabeça a tua sina como se andasses de bicicleta, ensina-me a passar na Avenida com um pedaço de mar à cabeça sobre a alma enrodilhada.

Diz-me como se atravessam as ruas de coturnos pretos nos pés, ruas de canastra sem mãos a oscilar e meia dúzia de ondas cobertas com telas de navios.

Diz-me como entras no meu quarto a gingar a alma de canastra e atravessas os vidros da janela no fio do equilíbrio como se andasses de bicicleta e eu fosse ainda menina.

Diz-me com se passa na Avenida com ondas na cabeça cobertas por um lenço preto por onde passa a bicicleta com rodas de meia dúzia de peixes sem mãos.

Diz-me como se torce o farrapo de navio que equilibra a canastra na tua cabeça e ensina-me a atravessar as ruas como se fosse menina outra vez, porque a minha alma sem mãos é a tua rodilha.

 

Imagem - Fabien Delaube

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Gavetas:


15 rabiscos

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De naomedeemouvidos a 29.01.2019 às 15:55

Não sei quem "viu" a Gaffe. Mas, eu vi a minha avó. Uma das minhas Avós. Também leva a rodilha na cabeça, nesse mesmo equilíbrio frágil e, ao mesmo tempo poderoso, como só algumas mulheres são capazes. Não carrega peixe, a minha avó - e não recordo de que cor são as meias que leva calçadas. Carrega a roupa acabada de lavar, branca, a cheirar a sabão, que há-de estender, a corar. Era uma mulher como outras, do seu tempo, apostada em viver a vida plenamente, mesmo que a vida, por vezes, lhe voltasse as costas.

Eu adorava olhar o rosto da minha avó, quando ia visitá-la e assim a via chegar. Corada, como a roupa, alegre como só ela podia.

Gostei muito. Obrigada.
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De Gaffe a 29.01.2019 às 16:09

Obrigada.
São avós extraordinárias as que me são dadas a conhecer.
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De Pequeno caso sério a 29.01.2019 às 22:23

;)*

A minha (avó) não trazia pregão mas trazia impregnado o cheiro do trabalho duro da indústria conserveira.
Não gostava que a mimasse antes que tomasse o segundo banho. Nunca conseguiu porque lhe saltava para o colo como se fosse a ultima vez que nos víamos.

Não trazia pregão mas trazia sempre as melhores bolachas que alguma vez comi.Poucas porque o dinheiro não abundava mas as suficientes para me povoarem a memória até hoje.

Não trazia pregão mas trazia um amor que espero ser capaz de um dia, passar também aos meus netos.


:)*


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De Gaffe a 29.01.2019 às 23:28

Mas o amor é exactamente esse pregão.
:)*
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De Rui Pereira a 29.01.2019 às 16:00

Gaffe,
Que belo texto!
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De Gaffe a 29.01.2019 às 16:08

:)
É a imagem.
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De Luísa de Sousa a 29.01.2019 às 17:03

Oh, lindo texto e que linda imagem!
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De Gaffe a 29.01.2019 às 17:45

Obrigada.
Sim. A imagem é incrível, também acho.
Há tantos criadores de sonhos, à solta.
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De Sarin a 29.01.2019 às 19:20

Na Nazaré é paredão, não avenida. E o equilíbrio o mesmo, a alma esticada ao sol nas redes com o carapau, umas vezes seca, outras enjoada.... torcida, não, que a rodilha se desenrola dos olhos até ao mar que se enrola na areia enquanto subo com o funicular e desço as minhas memórias ladeira à solta sem mãos.

Foi boa, esta viagem em canastra embalada. Obrigada.
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De Gaffe a 29.01.2019 às 20:03

Há mares iguais.
Em todo o lado. Até em Paris, no centro da Foch.

Obrigada eu.
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De Pedro Vorph a 30.01.2019 às 18:55

Bem...como hei-de dizer? Lindo, pode ser?
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De Gaffe a 30.01.2019 às 20:00

Claro que sim. É perfeito.
Obrigada.
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De Maria Araújo a 30.01.2019 às 22:22

Um texto que me fez voltar atrás no tempo, quando elas vinham com o seu pregão vender o peixe à porta de casa.
E o farrapo de navio que tão bem segurava a canastra, era a minha admiração.
E as padeiras também.
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De Gaffe a 31.01.2019 às 09:45

:)
As padeiras ainda existem no Douro, mas chegam nu a carrinha sem pregões. Só com buzina.

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