Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe oferecida

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.18

473.jpg

 

Estes primeiros e intermináveis dias do ano foram sábios.

 

Vivi-os a confirmar a facilidade com que damos tudo por quem faz parte da nossa vida, por quem amamos, a quem habita a nossa alma. Sabia que por amor se torna instintiva a dádiva. Não é necessário desenrolar papiros, digitar teses académicas ou fazer rimar amor com qualquer outra dor, para nos apercebermos que a entrega de tudo o que temos se faz no instante em que nos reconhecemos no outro.

 

Não sabia ser possível que por amor se consegue dar o que não se tem.

 

Vivi estes primeiros e intermináveis dias do ano junto de um Amigo.

Um imenso Amigo que, por circunstâncias que são reservadas, viu pretensamente em perigo a vida de quem constitui uma das suas escassas ligações ao mundo e uma das suas raras ligações com os sentidos.

 

Urge dizer, para que se entenda, que este magnífico homem foi tocado pelo prenúncio do autismo que, por circunstâncias aleatórias, insondáveis, inesperadas, o aproximou da genialidade, aproximando-o ao mesmo tempo de Asperger.

O facto amputou-lhe as previsíveis apetências sociais, dificultando ou mesmo impedindo a descodificação de signos sociais, a leitura de emoções alheias, a capacidade de interagir fora de um círculo de um rigor próximo do científico, isento de metáforas - embora seja capaz de nos paralisar quando revela as ligações que produz dentro da alma -, restringindo-lhe os universos de emoções que em nós tropeçam a cada instante e diminuindo-lhe significativamente a capacidade de resistir a agitações, sensações, perturbações e desordens que, nele labirintos, o deixam preso a um solidão vinda de dentro e que não tem lugar no mundo habituado a solidões presas em redes sociais.

 

O que consegue depois, e fora disto, é ilimitado.

 

Por circunstâncias aqui irrelevantes, este genial gigante viu ameaçada a vida de quem sente que ama - sentir que se ama e amar, não são aqui a mesma coisa, sendo que o sentir é a consciência do facto e por inerência, um acto racional que mistura a raiz com o paradoxo, a verdade que se conhece, o real passível de ser experimentado, a razão sobreposta à emoção sem a aniquilar ou secundarizar.

 

A brutalidade, a rispidez, a antipatia quase ofensiva, a distância inquebrável e intransponível que o separa dos outros, a indiferença ou a severidade com que olha o que o rodeia, a impossível admissão do toque físico ainda que social e inócuo e a aspereza com que interage com o desconhecido, abriram-lhe na alma um poderoso buraco negro onde nada existe que não seja defensivo.

 

Estive ao lado do meu Amigo estes primeiros e intermináveis dias do ano e aprendi que é possível que por amor se dê o que não se tem.

Aprendi com ele, ao vê-lo - mesmo sendo ele a antítese do visto - que por amor se amortece o som da voz; se agarra, se amacia, se protege e se afaga  a mão de quem se ama durante o tenebroso período de tempo que dura uma ressonância magnética; se é capaz de seguir com uma doçura infinda a agulha que vai recolher pedaços de pavor; se consegue ouvir com dedicação extrema as definições clínicas, os relatos de casos idênticos e os relatórios que se não entende; que se encontra a leveza de uma conversa banal, inadmissível outrora; que se é capaz de beijar com um sorriso transparente o médico que afasta o terror adivinhado e que se está de súbito apto a apertar num abraço os que nos devolvem a alma.

 

Nestes primeiros e intermináveis dias do ano, aprendi que se é esperado e certo que por amor se dê tudo o que se tem, é por amor que entregamos de mãos todas abertas o inalcançável deslumbre do que em nós está ausente.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


18 rabiscos

Imagem de perfil

De Gaffe a 09.01.2018 às 16:37

Apesar de medonho, foi um episódio reluzente. Descobri - descobrimos - tanta coisa que era suposto ser impossível.
Imagem de perfil

De Fátima Bento a 09.01.2018 às 20:03

Foi isso que captei do teu texto. E isso que me emocionou...
Imagem de perfil

De Gaffe a 09.01.2018 às 20:45

Sim.
É inimaginável o que deixamos por descobrir.

Comentar post



foto do autor