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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ortográfica

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.14

Antes de tudo, convém referir que sou doutora Honoris Causa no assunto que me traz aqui.

Raras são as criaturas que como eu foram surpreendidas pela transcrição integral de um post seu num blog que destacou a vermelho os erros que ali foram cometidos. Embora não se reportasse à ortografia, a cor que fazia sobressair as gralhas que se limitavam a erros de concordância – numa frase feminina estaria escrito dois em vez de duas – gritava também numa pretensa análise literária, que se não fosse tão patética seria presunçosa, onde a correctora apontava os vocábulos que deveriam ser extraídos do texto e refazia frases que não tinha entendido ou que lhe desagradavam pela formulação escolhida. Um remoque digno de figurar nos anais do absurdo e do ridículo ou, de forma mais minimal, nos anais, simplesmente.    

Posto isto e provado o estatuto de privilegiada nestas andanças correctoras, volto com redobrada atenção a ler a Gaja.

É evidente que Dos erros é um texto inteligente, com um humor invejável, eficaz, certeiro, arguto e que tem a sorte de ser primorosamente ilustrado nos comentários apensos. Tem outras qualidades que me abstenho de referir, porque devo moderar os adjectivos.

Creio no entanto que poderá conter um aspecto perverso a não descurar.

Ninguém quer pertencer a qualquer um dos grupos de correctores ali apontados e caracterizados.

Os comentários feitos revelam uma opinião pouco lisonjeira acerca dos que nos vão apontando as falhas ortográficas. Admito ser desagradável dizerem-nos que o á que escrevemos humilha o verbo haver ou que encontrastes modo de contaminar uma frase inteira, mas acelerar quando se avista o atropelado, não é na esmagadora maioria dos casos a atitude mais certa.

É divertido o modo como no Dos erros é visto o corrector, mas acaba por fazer com que me retraia quando me deparo com uma calinada alheia, receando a minha inclusão num dos grupos desenhados com ácido pela Gaja ou que me distancie por completo do erro cometido, num silêncio que acaba por ser cúmplice.    

Pode ser sugerido este silêncio? É justificado o assobiar para o lado? Será suficiente sentir vergonha alheia? De que forma é aceitável indicar a alguém um erro ortográfico? Como o fazer sem encarnar na desagradabilíssima figura de censor mofento? De que forma escapar à classificação da Gaja? Deixar incólume o prevaricador ou apontar-lhe a faca do correcto?

 

Confesso que não sou uma rapariga corajosa quando embato com um texto em que os erros ortográficos, os erros de pontuação ou os erros de sintaxe e semântica transformam uma frase num cenário de pós-guerra.

Fujo.

Nunca mais volto ao campo daquela batalha perdida e tremo ao pensar que também eu posso disparar sem ter mira segura, mas eu sou uma miúda muito frágil e tenho muito medo de granadas. 

 

cartoon de Henrique Monteiro 

 photo man_zps989a72a6.png


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