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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe para 2018

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.17

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Foi o desprendimento de David, de Miguel Ângelo, que me avassalou.

Foi a tranquilidade subtil do segurar lasso da funda desarmada, a ausência de fúria no movimento sem sonoridade, os flancos num desequilíbrio de sensualidade quase provocadora, o peso pousado numa perna que obriga o corpo - peso pluma - inteiro a desenhar um arco delicado de serenidade inesperada e a quietude pacífica, imprevista, dos músculos perfeitos, que me fizeram crer que o guerreiro se centrava apenas no olhar.

Em David, apenas o olhar contém violência. Tudo o resto é a escultura de uma batalha que findou, a impassibilidade do vencedor, a certeza da inutilidade do combate.

 

Talvez David retenha por isso uma estranha espécie de feminilidade discreta, quase imperceptível, que atrai porque o satura de impenetrabilidade, como se fosse um segredo, ou um mistério.

 

Creio que é num labirinto de hesitações, de dúvidas e de incertezas que acabamos por desejar desesperadamente tombar. Necessitamos dos vórtices, dos vendavais, da voragem das angústias e dos medos, do talento para derrubar espectros e erguer quimeras, da velocidade doida com que cobiçamos os mais ínfimos mecanismos, as minúsculas roldanas, os mais escusados apetrechos que permitem a trepidação que nos entrega a aparência de estarmos realmente vivos.

Não sabemos parar. Não conseguimos parar.

 

Talvez por isso David nos deslumbre. Não espera nada.

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20 rabiscos

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De Genny a 29.12.2017 às 16:43

Bom Ano, Gaffe!
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De Gaffe a 29.12.2017 às 20:13

Obrigada.
Um feliz 2018 para ti.
:)*

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