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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe parisiense

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.15

eiffel-tower.jpg

 

Não sei, e nem quereria se soubesse, dissertar sobre a carnificina ocorrida em Paris.

Ninguém o sabe.

 

Horroriza-me contudo, e mais uma vez, o modo como a comunicação social usou as imagens até ao encarniçamento. Os canais portugueses de televisão mantiveram no ar durante horas a fio, substituindo toda a programação, pedaços da tragédia que chegavam em directo, disparando-os depois, durante dois dias, para servir de fundo a debates, opiniões, mesas redondas, sapiências e exibições de ego.

Ao lado, mesmo aqui tão perto, os canais de televisão franceses tentavam manter a normalidade, noticiando a ignominia com prudência, em luto, sem alarmismo, sem parangonas, sem histerismo e sobretudo sem nenhum vestígio de pretenderem manter as audiências à custa dos retratos repetidos da dor ao lado da degradação humana.   

 

Neste escalpelizar imagético que provoca pela insistência absurda uma espécie de anestesia moral, apenas as imagens da retirada de Hollande e da sua comitiva do estádio de França foram vista uma só vez.

 

Do meio da multidão colorida agitada pela alegria, cerca de oito criaturas vestidas de escuro erguem-se e são suavemente guiadas para a saída. Tudo é discreto, conservador, bem feito, pacífico e nada alarmante.

 

Uns poucos senhores e uma senhora loira são acompanhados devagar e com suavidade para longe do que já sabem ter ocorrido, protegendo-se de eventuais repercussões ou repetições do acontecido. Partem de helicóptero. Milhares de pessoas permanecerão no estádio apenas com alguns indícios tardios do horror que alastrava no exterior e do eventual perigo que haviam corrido e que permanecia activo. Ficarão no estádio durante mais algumas horas e cantarão La Marseillaise à saída.

 

Dar-me-ão inúmeras razões, e de toda a ordem e possivelmente válidas, que justificam a extracção salvadora de uns poucos senhores e de uma senhora loira do meio de uma multidão passível de se tornar vítima de uma potencial calamidade, mas a imagem da retirada, da fuga discreta e muito diplomata de Hollande e da sua comitiva, deixando para trás um rebanho ignorante a festejar um jogo inocente, deixa-me a pensar que somos todos, e em todo o globo, pobres peões descartáveis num mundo onde as redomas que guardam os eleitos lutam pelas peanhas.  

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17 rabiscos

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De Calimero a 16.11.2015 às 11:09

Concordo em absoluto com a "exploração" de imagens e repetidas muitas delas,,,bem ao estilo portuga :(

Triste e e tudo o que me resta..

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De Gaffe a 16.11.2015 às 11:16

É tudo o que nos resta.
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De Vitória a 16.11.2015 às 11:18

Bom texto, é assim mesmo que nos tratam, como descartáveis.
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De Gaffe a 16.11.2015 às 11:44

E obedecemos.
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De Maria Araújo a 16.11.2015 às 12:21

"...canais portugueses de televisão mantiveram no ar durante horas a fio..."
hoje de manhã (nunca ligo TV a não ser à noite à hora das notícias) no hospital onde fui fazer exames de rotina, ainda passavam as mesmas imagens, discutia-se o mesmo assunto.


"...sapiências e exibições de ego."

são imensos e iluminados estes nossos "intelectuais" convidados pelos canais de TV.

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De Gaffe a 16.11.2015 às 12:30

Enquanto que as televisões francesas o tratam com parcimónia e inteligência.
É uma tragédia, não é um palco de aberrações circenses.
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De Neurótika Webb a 16.11.2015 às 13:30

"para servir de fundo a debates, opiniões, mesas redondas, sapiências e exibições de ego."
Acho que isto resume o tipo de televisão que se faz hoje em dia. Comenta-se tudo, opina-se sobre tudo e esmiuça-se tudo.
Resolvi não escrever sobre o assunto. Já disse tudo o que tinha a dizer sobre o assunto, já dei a minha opinião...a quem se interessa pelas minhas opiniões. Já liguei aos amigos que estão em França, alguns em Paris, para saber como estão.
Esta é a miséria da comunicação e das redes sociais. Os comentários e as fotos dão uma sensação de "dever cumprido" a quem os publica...mas na verdade, não se fez nada!
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De Gaffe a 16.11.2015 às 13:39

Eu sei que os que amo estão a salvo até ao momento.
Deixou de haver jornalismo em Portugal, receio. Há fogueteiros.
os jornalista franceses - sobretudo os que rem directo, nas televisões - foram exemplares.

Apesar de tudo, o meu simbolozinho aqui no blog, atenua-me as saudades que mantenho de Paris. É urgente ter saudades de Paris.
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De Neurótika Webb a 16.11.2015 às 13:45

Cara amiga, todos sabemos que as tuas raízes estão em Paris.
Estava a falar dos outros, que são "Charlie" e de todos os movimentos, cores e bandeiras possíveis.
Relativiza-se tudo. Ao ponto de não nos lembrar-mos da tragédia em si, mas dos movimentos massivos nas redes sociais que nos levam ao vómito.
A exploração destas coisas dá-me nervos.
Aliás, só li o teu (porque sei que tens pessoas lá e assim que vi o laço preto rezei para que não tivesses perdido alguém), o resto nem me dei ao trabalho.
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De Gaffe a 16.11.2015 às 13:53

Sabes? Charlie só reconheço um e completa-se com Chaplin.

"(...) That's the time you must keep on trying
Smile, what's the use of crying?
You'll find that life is still worthwhile (...)"


... That's the time you must keep on trying ...

Ninguém é "Charlie". Somos todos figurantes num circo devasso.
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De Neurótika Webb a 16.11.2015 às 14:26

...ou, pegando na música, Charlie Parker.
Tenho essa música na minha playlist, cantada pelo Louis Armstrong. :)

Lembra-se tudo do "Circo" do Facebook, mas aposto que não sabem nem um nome das pessoas que morreram.
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De Gaffe a 16.11.2015 às 14:35

Sabes que esse facto, aliado ao "circo" que vejo a passar, me faz tão desesperançada - se a palavra não existir, não tenho outra.
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De Neurótika Webb a 16.11.2015 às 15:25

Não interessa se existe ou não...mas é de facto a mais adequada.
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De Anónimo a 16.11.2015 às 16:19

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De Gaffe a 16.11.2015 às 16:33

Não sei.
Os parisienses sempre foram resistentes. Não creio que o medo dure assim tanto. É necessário que não dure.

O luto devia estender-se, neste momento, às famílias sírias que se viram bombardeadas pelos aviões franceses.
O anúncio chega vingativo e orgulhoso na voz dos jornalistas ocidentais e do governo francês. É diferente da reivindicação do atentado em Paris, mas não me parece uma antítese.
Enfim. Não entendo.
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De Anónimo a 16.11.2015 às 17:07

Comentário apagado.
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De Gaffe a 16.11.2015 às 17:31

É tão difícil entender.
Ontem ouvi um sábio francês, velhíssimo, a tentar explicar o fenómeno e percebi que o terror é recíproco. Acredita que à vezes não sei onde estão as vítimas, se perto, se longe de nós, ou se podemos unir estes massacres com uma linha só, traçada por uma entidade apenas.
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De Corvo a 16.11.2015 às 20:21

Cara Gaffe.
O que este atentado me diz, e outros que estão na calha, é que a Europa vai toda virar à Direita, mas direita extrema.
Não duvido que Marine Le Pen vai ganhar as eleições, a Inglaterra já o é e agora vai deixar de disfarçar e assumir, a Itália sempre foi e a Angela esfrega as mãos de contente.
Ou isso ou uma Europa, e quem diz Europa diz o mundo, dentro de vinte anos todo muçulmano.
Inclino-me para a primeira. Duvido bastante que as mulheres ocidentais vão na conversa da cara tapada até aos pés.
Portanto tenho a certeza de que entre nós, esta estupidez de brincar aos governos com trindades e companhia Ilimitada não dura seis meses.
Dentro de dois anos toda a Europa é extrema direita. Com o apoio incondicional da América que não quer outra coisa.
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De Gaffe a 16.11.2015 às 20:38

Que cenário, meu caro Corvo!
Dentro de vinte anos serei também uma matrona cinquentona e de direita ou apenas uma burka enfiada em suspeita e dogmas?

Apesar de me ter assustado, suspeito que as noções de direita e de esquerda foram ultrapassadas, ou atropeladas, pelos camiões dos "mercados". Seremos qualquer outra coisa, mais humana. Tenhamos esperança.

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