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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe "piçada"

rabiscado pela Gaffe, em 22.01.15

piaçabas.jpgÉ tão confortável atribuir um conjunto de circunstâncias que não podemos controlar, mas que de alguma forma acabam por nos ser favoráveis, à Sorte! Ficamos com imenso tempo para fazermos compras ou trocar de carteira.

Arrumamos o assunto chamando outra coisa tonta àquilo que não nos agrada e que nos acontece sem interferência nossa, embora nos arrisquemos neste caso a ouvir as guitarras portuguesas a trinar.

    

A minha prima hesita.

Que usará a pobre rapariga de modo a não se mostrar ostensiva, salvaguardando-se ao mesmo tempo da pinderiquice?!

- É interno de Medicina Geral e Familiar. Informo enquanto peso as saias da discórdia.

- E isso significa o quê? - Quer mais informações, tocando nas peças que lhe são mostradas: uma saia belíssima, quase tudo, quase nada, com cinta subida abraçada por uma fita de seda grossa laçada à frente, inconfundivelmente Chanel, a lutar contra uma outra, preta com pintas minúsculas prateadas, de corte anos cinquenta, mais discreta.
- Que ainda falta imenso tempo para o levarem a sério, mas que serve de panaceia.
- Parece que estás a falar de um vibrador! - Com o frio a minha prima pode ser pouco contida.
- Não faço ideia. A única vez que vi um, acordei com o cabelo frisado.

 A minha prima, com quebras de tensão, tinha alquebrado um jovem de bata branca, que lha mediu e a auscultou, parece que demasiado atento, solicito e com tensões altíssimas.
- E se deixares ser o L. a decidir?! - Sugeri eu, já estafada com tanto voltear de sedas frescas.
A sugestão foi esturricada por uma chispa de lume que se soltou dos olhos da minha prima. O único interesse que encontra nas crianças é o facto de elas não a suportarem e lho dizerem descaradamente.

- A menina use a piçada.
Paralisamos.
Não pelo susto que é bater de frente na Lúzia, setenta e vários anos de experiência em prender e alimentar as doidas desta casa, mas porque receamos o pior, a insanidade verbal daquela senhora, vinda do Minho catraia muito tola, para servir a avó.
Refeitas e prontos para tudo, entendemos a singular escolha. A saia era a plissada de La Renta.
O rapaz, sem bata branca, deslumbrou! De casaco tweed e jeans bem apertados.
Sorri, babei-me e disfarcei com um beijo.

A convidada entrou depois, de saia preta e prata, tão discreta. Bateu com o olhar no rapazinho e beliscou-me. Sem estetoscópio pendurado e de jeans justinhos o rapaz era um risco que sabia bem correr.

 

- Mudei de ideias! - Solta a minha prima de soslaio. - Vou-me trocar num instante. Hoje levo a piçada.
Eu concordei.

 

Trago agora vestida a saia laçada de cintura alta da minha irmã que não faz ideia que a emprestou. Elegantíssima, mas desconfortável. Sou mais baixa do que a megera - que terá de nos agradecer o furto já que quer uma, quer outra das peças roubadas lhe fazem o rabo grande - e não consigo sentar-me sem a sentir subir e magoar-me as mamas.

Azar.

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