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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por iluminar

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.17

Merriman.jpg

 

George Steiner é indiscutivelmente um dos maiores pensadores do planeta e é também, e não menos importante, um dos meus ídolos.

Numa palestra longínqua, contou uma lenda, porque gosta de lendas e porque desejava clarear o seu raciocínio - já tão claro! -, com uma analogia simples que procurasse ilustrar o seu labirinto aberto com palavras.

 

Num palácio com duzentas janelas, todas as noites o príncipe ordenava que uma vela se acendesse em cada uma. Dessa forma, a sua princesa deixaria de ter medo da noite no jardim por onde deambulava à procura da lua coberta por véus de névoa escura. Bastaria à sua princesa a certeza das duzentas janelas que velavam o seu vaguear. Pelas noites dos tempos, nas janelas do palácio uma vela ardia.

Em todas, menos numa.

Das duzentas janelas do palácio, uma ficava por iluminar. A primeira vela a ser acesa extinguia-se enquanto o camareiro se ocupava da última. Era essa precisa janela o medo da princesa.

 

Não sei - pecado meu e má fortuna -, a razão exacta que levou Steiner a referir a lenda, mas a grandeza do sábio permite que humildemente arraste para o meu minúsculo nada o que com certeza tem dimensões não mensuráveis.

 

De todas as janelas nocturnas que avistamos - ainda que brandamente clareadas -, que seguram e afastam os nossos medos, a única que conta é a que se apaga e por muito que tentemos iluminar duzentas, haverá sempre aquela que se extingue no momento em que acreditamos ter brilhante a última que fará a noite dos que adoramos, se transformar em dia.

 

Ilustração - D. Merriman

 photo man_zps989a72a6.png

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22 rabiscos

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De Corvo a 19.12.2017 às 13:34

Penso que o que Steiner quis dizer foi que no concernente à infalibilidade humana só existe como palavra explicativa no dicionário para algo que não existe.
Ou não fosse a palavra substantivo feminino.
Infalibilidade tanto quanto me é dado saber só conheço duas: o passado e a a morte.
Um excelente dia
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De Gaffe a 19.12.2017 às 13:45

Belo comentário.
Steiner com certeza que gostaria de o conhecer.
:)*
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De Corvo a 19.12.2017 às 14:13

Eu que tanto me insurjo contra os velhos por viverem de mais, :) ora aí está o George a contraditar-me.
Com os seus lúcidos e enobrecidos 88 aninhos, por mim podia viver até aos 120, e ultrapassá-los, quiçá.
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De Gaffe a 19.12.2017 às 15:16

Steiner é um terno e maravilhoso génio. Um dos raros que ainda nos vão conseguindo salvar.

(Já tem 90 anos, se não estou em erro)
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De Anónimo a 28.12.2017 às 13:01

Apresente-me uma boa razão para se insurgir quanto à longevidade de alguns velhos; já agora qual é o intervalo etário que subjaz a esse rejeição?

Um excelente 2018, Corvo
Maria
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De Folhasdeluar a 19.12.2017 às 18:08

Não vou interpretar o sábio, mas...acho que todos vagueamos pela janela escura do medo que está dentro de nós ...mascarado por todos os brilhos que espreitam pelas nossas outras janelas... claras como a luz que disfarça quem somos...
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De Gaffe a 19.12.2017 às 18:18

O que de maravilhoso há nas lendas é abertura que permitem a interpretações tão fantásticas como a sua.
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De Pequeno caso sério a 19.12.2017 às 19:04

Longe... a léguas de distância do que escreveste mas igualmente sentido, fica aqui o meu testemunho sobre a importância que as "janelas" têm na minha vida :

http://pequenocasoserio.blogs.sapo.pt/janelas-2263
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De Gaffe a 19.12.2017 às 19:22

Lembro-me claramente de ter olhado pelas tuas janelas. Por aquela em particular.
Gosto das tuas janelas. Mesmo quando as encerras por um bocadinho.
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De Pequeno caso sério a 19.12.2017 às 21:48

E se eu te dissesse que, na simplicidade do que acabaste de escrever me fizeste lacrimejar , acreditavas ?
És exímia nisso também.Sabes tocar na emoção mais escondida "apenas" com palavras.Gosto disso. Gosto MUITO disso. )

: )*
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De Gaffe a 19.12.2017 às 23:30

E eu GOSTO de ti.
*
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De Pequeno caso sério a 20.12.2017 às 18:25

E eu de ti. Mas disso tu já sabes há muito.
:)*
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De Von a 19.12.2017 às 21:42

Recordo com saudade a palestra deste filósofo na Universidade de Cambridge sobre Parménides
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De Gaffe a 19.12.2017 às 23:28

Nao era necessário assustar-me. Tenho imenso medo de Paraménides.
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De Diogo a 19.12.2017 às 22:03

«para o meu minúsculo nada» Não. És enorme!
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De Gaffe a 19.12.2017 às 23:29

Sou alta. É diferente.
;)
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De Cuca, a Pirata a 20.12.2017 às 14:41

Quando o medo está cá dentro, busca a sua própria janela escura.
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De Gaffe a 20.12.2017 às 15:56

Ou apaga uma das que se clarearam.
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De Carlos Berkeley Cotter a 22.12.2017 às 12:44

Aproveito este meio para lhe desejar umas Festas muito felizes e um excelente 2018.
Não há que ter medo de Parménides. Ele é tão engraçado e já morreu há muitos séculos.
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De Gaffe a 22.12.2017 às 15:18

Obrigada, meu querido Mr. Cotter. Um Belíssimo Natal para si também e 2018 tão perfeito que nos deixe perplexos.

Em relação a Parménides, meu caro, saiba que são os que morreram há séculos os mais assustadores. Nunca usam perfumes satisfatórios.
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De pimentaeouro a 23.12.2017 às 19:43

Venho desejar-lhe um Feliz Natal na companhia dos que lhe são queridos.
Um abraço.
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De Gaffe a 23.12.2017 às 20:15

Agradeço e retribuo o seu inesperado voto.
Um belo Natal também para si.
Obrigada.

(Vivo rodeada de Cavalheiros!!!)

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