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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pouco provável

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.19

Jon Whitcomb.jpg

Há alguns dias alguém fez uma ligação para estas Avenidas. Como a curiosidade afagou o gato, esta rapariga foi espreitar a razão, pois que tem sete vidas e pode perder uma ou duas.

O post em causa surgia com uma daquelas frases faceboquianas, emolduradas e pregadas na parede. Nada mais existia, a não ser aquela colada alusão ao modo como me dedico a filosofar, ou em busca de provérbios bíblicos, durante os dias úteis, enquanto que ao fim-de-semana me entrego aos prazeres da carne. Tal constatação, assustava a responsável pela ligação.

 

Achei extraordinário.

 

As probabilidades de se acertar na forma de viver dos outros, através daquilo que intuímos pelo que deles lemos, são iguais às que nos cabem no cabaz do euromilhões.  

 

Estamos sempre invariavelmente longe da vida dos outros, se conhecemos deles apenas as migalhas, e é muito pouco acertado considerar que é legítimo o que se intui, tendo apenas como termos de comparação e únicas referências as nossas próprias vivências.


É interessante, mesmo para a banalidade da frase iluminada e sem dono, o uso do prazeres da carne como exemplificativo da minha actividade lúdica de final de semana, porque ilustra o erro e a enorme distância que separa a minha cama supostamente em desalinho carnal daquilo que realmente me ocupa.

 

Há quase seis anos que os meus fins-de-semana são entregues a um projecto que me consome horas a fio e que me ocupa desde a alvorada ao anoitecer. Foi construído de raiz. Paguei cada pedra, cada telha, cada pedaço de cal, cada trave de madeira, cada lata de tinta, cada vidro, cada porta, cada objecto, cada instrumento, cada peça de mobiliário, cada maquineta, cada detalhe, cada uma das necessidades e urgências que foram surgindo. Continuo a pagar a manutenção, a limpeza, a água, a luz e a segurança. Continuo a pagar às pessoas que comigo trabalham, excluindo a Margarida e a Luísa que se tornaram essenciais nos turnos e nas escalas que não se importam de cumprir sem qualquer remuneração.

Se fosse de Direito, falava em pro bono. Sou de Ciências e, como tal, deixo de ter fácil acesso expressões latinas para nomear o facto de me sentir obrigada a olhar para a minha gente que não tem, que nunca teve, capacidade de pagar o direito de ser assistida condignamente.

Tenho, é evidente, a sorte e a possibilidade de, fora deste projecto, escolher o que quero fazer, quando e onde quero trabalhar, mas aqui, cá dentro do que fui erguendo sozinha, o meu horário é nobre e para lhe obedecer tenho por obrigação os meus fins-de-semana saturados.

É evidente que tropeço - cada vez menos, felizmente - com os chamados ditos e contos de pares e de ímpares, mas sempre mantive a minha privacidade murada e os petardos foram sempre inúteis e inconsequentes.

 

Escapa-se agora um pedacinho de luz sobre os prazeres carnais dos meus fins-de-semana. Deixo que a menina da ligação entre nos meus muito secretos dias inúteis. Foram privados até ao momento, exactamente como mantenho privado, ao contrário do que se supõe, o resto da minha vida ladeada pela vida dos outros.

 

É tontice concluir que nestas Avenidas foram expostas as vidas de quem amo. Jamais incorri no terrível erro de narrar o que não quer ser narrado, ou expor o que não deve e não quer ser exposto. Entre centenas de imagens que aparecem nestas Avenidas, raríssimas são as que revelam o meu mais íntimo universo. Entre as narrativas que se desenrolam por estas paragens, foram evitadas as que se relacionam com aqueles que as iriam abominar se descobertos nelas retratados. O meu irmão, os meus pais os meus avós paternos, o homem que amo e que biblicamente conheço, por exemplo, foram apenas - e raramente - tocados de raspão. Foram sempre preservados. Nunca mostrados.

 

Conheço os meus. Sei exactamente os que posso revelar sem dolo ou dano e os que devo calar e sentir apenas dentro da minha alma.

 

Sou, ao contrário do que se imagina, uma rapariga muitíssimo sensata.  

  

Por tudo o que é dito e mais que não se diz por ser privado, acabo por perceber que, debicando as migalhas que encontramos no caminho, nunca chegaremos à casa de quem queremos. Chegamos sempre à nossa.

 

Imagem -Jon Whitcomb

 

NOTA - O que foi escrito, deve-se a um erro grosseiro de interpretação da minha inteira irresponsabilidade. Não quero - nem posso, nem devo - deixar de pedir publicamente desculpa ao blog envolvido, que se limitou a ser gentil com esta idiota que agora se penaliza, assim como a todos os que leram e tiveram a amabilidade de me comentar.

O erro, contudo, não será apagado. Ficará exposto para me envergonhar. 

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11 rabiscos

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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 14:06

Já fiz e refiz dois ou três textos sobre as pessoas que cabem dentro dos blogues. Desisti, porque cheguei à conclusão que há gente que não merece tanto, e há outros que merecem mais. Muito mais.

Espantam-me, no entanto, duas coisas, ambas no mesmo sentido, creio: a facilidade com que se conclui da vida ou das opções de alguém porque sim, e a dificuldade em aceitar que podemos viver o mesmo, sentir o mesmo, sofrer o mesmo, amar o mesmo, não exactamente da mesma maneira.

Acho que quem não se basta precisa sempre de encontrar (des)prazer noutras paragens.

E, a propósito, tenho a certeza que já te disse, mais do que uma vez, tenho um orgulho enorme em ser de Ciências :)
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De Sarin a 22.07.2019 às 20:16

Ciências? Alguém falou em Ciências? :)))


Mas, Mademoiselle, não lhe perdoo! A Demoiselle fala em ligações, fala em blogues... e não partilha o caminho? Ohhh, e eu que adoro presunções sobre vidas alheias... amuei!

Na verdade...
Amuei porque voluntariado é palavra, para não dizer conceito!, que o bichinho talvez desconheça, e teres-lhe dedicado um postal... bom, ganhamos nós :))
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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 20:30

Ganhamos nós. Voilà! :)))
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De Gaffe a 22.07.2019 às 20:34

Mas o quê?
A minha vaga e passageira irritação.
:)
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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 20:40

Ganhamos as palavras, o texto, o privilégio de te ouvir. Achas que não vale a pena?
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De Sarin a 22.07.2019 às 21:22

Claro que vale... a pena? Prazer não é pena, é?

E... acho que a nossa querida Gaffe se sentiu lesada quando, numa leitura a frio, a senhora quis homenagear as Avenidas... O postal tem a tag 'follow friday'. E parece-me, assim à distância de quem tem a flor da pele muito à raiz, que estas nossas Avenidas foram indicadas como leitura de fim-de-semana: dei uma vista de olhos, e as últimas 'follow friday' da senhora têm um pensamento e três blogues que, a estarem relacionados com o pensamento, o estarão tão enviesadamente que não descortinei onde ou como :)

Mes chéries, a Mlle sorrirá talvez aquando de terceira leitura daqui a alguns dias ;)
:***
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De Gaffe a 22.07.2019 às 21:58

Provavelmente sorriria se tivesse de fazer uma terceira leitura.
Já passou.

:)
Mas, sim. Começo a acreditar que a senhora não queria ofender. As escolhas que faz dos cartazes é que são... "macacas".
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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 23:25

Há muito tempo que não ouvia essa expressão :)

É possível que seja só isso :)

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De Gaffe a 22.07.2019 às 23:48

No Douro é uma expressão corrente. É maravilhosa, não é?

Deve ter sido só isso. Mas a verdade é que abre todas as portas a interpretações pouco agradáveis.
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De naomedeemouvidos a 23.07.2019 às 00:25

Conheço-a perfeitamente. “Fartei-me” de a ouvir. A minha mãe usava-a imenso, comigo e com a minha irmã, quando éramos miúdas :)

Sim, seguramente.

Bom descanso.

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De Gaffe a 23.07.2019 às 07:17

Aqui há expressões que se preservaram e se mantiveram frescas. Continuam no activo.
Quanto mais longe do centro do Império, mais "puro" é o latim.

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