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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe praxa Miró e pede factura

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.14

A Gaffe tinha prometido aos botões Chanel do seu tailleur não admitir que teria de fazer coro com Cavaco Silva que, em relação ao pandemónio instaurado com o processo de venda de uma colecção de quadros, tem apenas a declarar que gosta de Miró como pintor. A Gaffe, embora prefira Miró como dona de casa, confessa que está desta vez ao lado do senhor Presidente e que é obrigada a assumir também que não entende mais do que isso.

A Gaffe acredita não estar sozinha com Cavaco (o que a tranquiliza imenso). Nesta ignorância participa a esmagadora maioria dos portugueses a quem apenas é dada a possibilidade de gostar, ou não, dos surrealistas ou de acreditar que os seus rebentos são capazes de produzir na pré-primária rabiscos similares aos do pintor susceptíveis de despertar a gula da Christie's.  

A colecção Miró, pertença da Parvalorem e implicitamente dos portugueses (nenhum trocadilho será bem acolhido por demasiado fácil), não teve a oportunidade de os ver, de lenços brancos desfraldados e chorosos, cantando um adeus piedoso e desolado. No entanto, merecia. Virgem e imaculada a colecção imerge, depois de ter estado pousada num Oliveira Costa. As semelhanças merecem atenção. Que se saiba, nenhum crítico de arte, nenhum especialista em surrealismo, nenhum historiador de arte, nenhum inútil do calibre destes a conspurcou, informando-nos do seu verdadeiro capital simbólico ou mesmo se deve ser total ou parcial, imediata ou faseada, a alienação. Não há notícia. A colecção é virgem e os petizes que nos governam afirmam que é para vender, comportando-se nesta operação com a irresponsabilidade de minorcas e com a ilegalidade do desenrasca vigaristazito ao ponto de ser necessário um raspanete humilhante de uma leiloeira.

A verdade é que esta rapariga não diz sempre o que pensa e sempre pensou que Jorge Barreto Xavier era parecido com um boneco de ventríloquo. Como reconhece que habitualmente a letra não tem nada a ver com a careta, preferiu silenciar esta maldade. Acontece que, neste caso, a careta coincide com a letra e o Secretário de Estado da Cultura comportou-se como o dito roberto permitindo o reconhecimento da sua não existência independente de quem o manipula, incapaz de negar ou no mínimo por em causa este esvaziar de capital simbólico, este esvair de capital cultural, em nome de um outro capital bem mais palpável que vai preenchendo miseravelmente as colunas do Excel.

A Gaffe não estranha nem lhe causa se espanto ver a subordinação dos mais básicos valores que agregam uma comunidade subordinados e esmagados por completo à vontade e poder de uma imagem de abnegação e martírio encarnada por uma ministra das Finanças que os vai trocando por concursos. Os petizes que governam o país consideram possível colocar sorteios de carros topo de gama como substitutos da educação cívica, da ética social, da consciência comunitária ou dos valores morais que são imprescindíveis a coesão, à agregação, de qualquer sociedade.  

É evidente que a Gaffe não vai hesitar em arrancar os dentes à chapada ao senhor Maurício, da leitaria Luz das Avenidas, se o homem não lhe entregar apensa à factura do cafezinho matinal a hipótese de poder guiar um topo de gama, mas ainda é capaz, embora por muito pouco tempo, de corar de vergonha quando assume que o que a motiva não é o respeito já automatizado pelo outro, um civismo já normalizado e generalizado, mas um sonho vestido à hora do sorteio por uma menina apertada e de maminhas ao léu.

O esvaziamento, sem qualquer retrocesso, espantosamente rápido, do capital simbólico e cultural que se observa no país, alia-se a uma despudorada ausência ou aniquilamento de valores e comportamentos cívicos e à incapacidade de os reconhecer, fomentar, promover e transformar em inevitabilidade social e talvez seja consequência da cada vez mais nítida ausência de filósofos, ensaístas, críticos, gramáticos, arqueólogos, geólogos, bibliotecários, arquivistas, historiadores, arquitectos, pintores, escultores, músicos, compositores, actores, encenadores, realizadores, bailarinos, coreógrafos, cenógrafos, jornalistas e outros tantos humanistas em vias de extinção.

Resta-nos assistir ao paupérrimo espectáculo do encastrar do capital que vai restando, o da mediocridade, num Dux coimbrão, um Peter Pan ressequido que há vinte e cinco anos mantém a ilusão da imobilidade, a mesquinhez de uma espécie de poder raquítico e deturpado, a permanência do idiotismo no mais imbecil dos lapsos temporais e que acaba por ser símbolo da mais completa inutilidade da existência, conseguindo ainda por cima ser um excelente exemplar de canastrão burgesso.

Depois de tudo isto, a Gaffe não faz a mínima intenção de se descabelar revoltada contra tudo o que vagamente soa a praxe, mesmo que praxados sejam os Mirós sorteados à toa pelo governo. Os petizes que esfolem o que vier à mão, que arrastem pela lama fancaria e jóias, que ajoelhem na bosta os  que os elegem, que os obriguem a comer terra e urina, que os façam espoliar nus cravados de espinhos, que os obriguem a beber absinto até não haver amanhã, que os rasguem, que os rebentem contra as esquinas das ruelas e vielas das vidinha dos doutores, que vigarizem a Christie’s e que assobiam obscenidades sorteadas. Haverá sempre portadores de bandeiras e de slogans. Que se danem todos por fim e por completo.

 

A Gaffe aborreceu-se.    

 

("e mais que não se diz, por ser verdade" - Fernão Lopes)

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