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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe preocupada

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.15

O rapagão tem 38 anos.

Não é suficiente para despertar a gerontofobia vigente, mas permite os alfinetes da praxe que trazem na ponta enferrujada o sacramental conceito do quarentão mulherengo e sacaninha, incapaz de manter uma relação emocional e o aviso que pica de perigo iminente.

 

No entanto, se tivesse de atribuir um determinado papel a este homem, escolheria Heathcliff, sem os demónios e os traumas que Brontë lhe entregou e Heathcliff pode ser sombrio e solitário, mas não é de todo um mulherengo sacana.

O homem dos vendavais é uma das figuras que mais me fascina em toda a Literatura e se o aproximo do rapagão é porque a imagem, sobretudo física, que desta figura criei se lhe reflecte no corpo.

 

O rapagão é grande. É um homem muito grande. As mãos conseguem esconder-me por completo a cara. Fico com o rosto coberto por noites e quando me encosto ao peito dele sinto que desapareço, porque o espaço é grande como o Yorkshire. Não é hirsuto, mas está muito longe de ser um boneco de plástico e tem desenhada uma espinha negra e dócil de pêlos nos músculos da barriga que podem ser contados.

É desleixado. Usa calças de pijama de flanela às riscas apertadas na cinta por um cordel de algodão. Ficam-lhe curtas e os tornozelos nus parecem aumentar ainda mais os pés que são tão grandes. Dorme de t-shirt e quando acorda, às seis da manhã todos os dias, cheira a madeira e a pão quente. Traz vestido este cheiro o dia todo.

Não fala muito. Trabalha imenso e não sei, pobre de mim, o que faz ele por muito que queira conhecer o que ele faz. Chega esgotado e sujo. Enrola no dedo um caracol do meu cabelo e não diz nada. Sorri, como se eu fosse um pássaro que veio sem saber de encontro às suas grades. Faz-me sentir idiota nesta altura. Abraça-me depois. Depois cozinha. Comemos batatas com bacalhau, couves e cenouras cozidas, encharcadas em azeite e temperadas com alho e vinagre caseiro. Gosta muito. Come maças à sobremesa e faz estalar a casca com os dentes.

Faz contas e escrevinha nos papéis sentado a uma secretária de madeira velha e, já noite feia, deita a cabeça no meu colo e adormece.

Chama-me chamazinha e o meu nome é esse.

 

Às vezes sento-me perto da janela quando estou sozinha e tenho muito medo de só estar ali à espera que ele chegue.

Depois pego na Vogue e entretenho-me.

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Gavetas:


12 rabiscos

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De PR a 18.03.2015 às 10:43

eis como se apaixona uma ruivazinha!

és dulcíssima quando te apaixonas. és ainda mais bonita (é possível?!) quando te apaixonas.
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De Gaffe a 18.03.2015 às 10:49

Não estou apaixonada!!!
Estou em estágio.
:)*
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De anacb a 18.03.2015 às 11:48

ah, os rapagões de 30 e tal!... (suspiro)... às vezes são uma caixinha de surpresas - boas, entenda-se.
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De Gaffe a 18.03.2015 às 12:08

... E as surpresas que esta caixinha me tem dado...
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De anacb a 18.03.2015 às 12:10

como eu te compreendo :)
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De Teresa a 18.03.2015 às 14:18

Estar apaixonado é tãoooo bom !
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De Gaffe a 18.03.2015 às 14:38

Estou em estágio...
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De Lizzie Bennet a 18.03.2015 às 16:58

É caso para dizer o amor é lindo.
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De Gaffe a 18.03.2015 às 17:06

O amor, não sei. A minha única experiência não foi coisa bonita de se ver, mas que o rapagão é, confirmo.
:)
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De Anónimo a 19.03.2015 às 13:38

Ó Gaffe,

Deixe-se ir...e vá esperando por ele: vale a pena.

Se ele demorar muito, leia tb a New Yorker, a Vanity Fair, a Esquire e a Monocle.

Fico aqui a torcer para que saia de estágio e passe à fase seguinte: emoção.

cumps & felicidades

Corto Maltese
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De Gaffe a 19.03.2015 às 14:10

Por aqui, tenho de me restringir à Vogue.

Mas acredite que a fase do estágio não tem corrido nada mal.
Sou, digamos, uma atleta de fundo.
:)
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De Maria Araújo a 26.03.2015 às 17:29


Desculpe, mas este post fez-me cair umas lágrimas ( o meu romantismo à flor da pele).

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