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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe presente

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.15

Albarrán Cabrera.jpg

O momento de enlevo poético da semana foi da responsabilidade de um querido amigo, pai há três meses, que na tarde de início de mantas nos joelhos e paisagem avistada da varanda de chá quente e biscoitos de manteiga, se derreteu:

- O meu filho fica horas completamente absorto a olhar as folhas das árvores a oscilar.

A imagem de um bebé pasmado com o bulício do Outono silenciou a temperatura e fez aparecer sorrisos mudos de ternura nas testemunhas da narrativa poética do desabrochar bucólico do petiz.

O momento, que fez parar o tempo, estilhaçou-se quando a minha prima, monocórdica e de olhar fixo, decidiu que tinha também de partilhar connosco o seu transportamento:

- Não me lembro se desliguei a torradeira.

As conversas rebobinaram de imediato e o barulho do chá e das bolachas reiniciou a tarefa de amornar palavras.

 

No entanto, o episódio desperta algum interesse.

 

No olhar pasmado do bebé há nada mais do que o Presente, porque nada é mais do Presente do que um bebé a olhar as folhas das árvores. Esta sabedoria de se olhar simplesmente é apanágio dos recém-nascidos e dos velhos. Perde-se no meio.

O desespero com que corremos para o futuro, impede que nos lembremos se desligamos a torradeira, ou, como me aconteceu em tempo que já lá vai, no meio da viagem não me lembrar se me tinha calçado convenientemente antes de sair ou se carregava no acelerador com uma pantufa de Inverno.

A capacidade de olharmos é substituída pela vontade de ver o mais depressa possível. O futuro, a noção que dele temos, porta-se como um vórtice de ansiedades e de antecipações que aniquilam a nossa capacidade de olhar as coisas, atenuando até ao limite do suportável os instantes que por nós passam no presente, mas que não julgamos contributo para o futuro. Valorizamos e iluminamos em demasia o objectivo a atingir e descuramos por completo o quotidiano que, imerso numa sombra forçada, não é sentido como meio ou ferramenta que permite o alcançar do projectado.

Vivemos com pressa de chegar, não perdemos tempo, como se a nossa vida esperasse muito lá ao fundo.

 

O olhar que vive no Presente é apenas a sabedoria do bebé pasmado com o oscilar das folhas de Outono, no momento exacto em que elas oscilam, e do velho que se vai hipnotizando com o arrulhar dos pombos no rolar dos grãos de milho que naquele instante vão tocar o chão.

 

Nós vendamo-nos para correr.      

 

Foto de Albarrán Cabrera

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7 rabiscos

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De Maria Araújo a 19.10.2015 às 10:50


Bebé / velho pessoas semelhanças com "obectivos" diferentes.
Um vive, o outro viveu.
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De Gaffe a 19.10.2015 às 10:52

Uma brevíssima correcção:
O outro continua a viver.
:)
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De Maria Araújo a 19.10.2015 às 16:32

Tem razão.
Vive as memórias.
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De Paula a 19.10.2015 às 15:11

Haverá quem considere um desperdicio o bébé olhar para a árvore e as folhas (alguém tem que dizer ao pai que é o movimento que ele segue, não as coisas em si) e poriam o mesmo em frente à TV, com bonecos animados.
Eu "perco" tempo a olhar para o céu, sigo um pássaro em voo por aqui, descubro um duplo arco-iris (lindo, lindo) por mero acaso, o de olhar!
É tão bom parar e olhar!
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De Gaffe a 19.10.2015 às 15:17

A motivação do bebé não é importante neste caso.
:)

Eu perco tempo à procura das coisas que me esqueci de lembrar.
Uma tragédia.
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De Paula a 19.10.2015 às 15:19

A minha avó diria: Gaffe, põe um cordelinho no dedo e já não te esqueces! :-)
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De Gaffe a 19.10.2015 às 15:53

Faço um "responso".
:)

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