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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe proustiana

rabiscado pela Gaffe, em 23.06.16

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O mais maravilhoso dos meus amigos é moreníssimo, possui uma juba leonina, com caracóis soltos, negros, descontrolados e olhos pretos como carvão. É um homem belíssimo. É também agreste e indomável - características mediterrâneas herdadas do pai, que a mãe tem a suavidade frágil e aparentemente submissa que quase sempre acompanha as elegantes de gema, - pratica pólo aquático desde criança, é professor agregado numa das mais prestigiadas Universidades do mundo e vai de bicicleta para o trabalho.

 

Estas especificidades fazem deste maduro trintão um magnífico exemplar da espécie e muitas vezes penso que se a divina Natureza tivesse de organizar um catálogo, esta criatura poderia figurar na capa.

É evidente que tem defeitos tenebrosos. É irascível, mal-humorado, rezingão, muito pouco social e sobretudo implacável com os responsáveis pelo mais pequeno deslize que implique uma falha na análise da relação complexa entre Aschenbach e Tadzio ou a localização desta particular obra de Thomas Mann numa Veneza de Inverno.

 

O magnífico e poderoso guerreiro não entende rigorosamente nada de trapinhos. É cego e surdo - tendo uma voz tonitruante - em relação àquilo que veste e apunhala os invasores que lhe sussurram ao ouvido que os tons cor de terra não são os que mais o favorecem.

 

Usa invariavelmente camisolas de gola alta e casacos de tweed, espinha ou texturas subtis, com cotovelos protegidos por ovais em pele, calças de sarja – normalmente chinos, - apertadas por cintos de couro corroído e arrogantes e robustos sapatos picotados de solas possantes. No Verão, a imagem não se afasta muito destas características, substituindo apenas a textura e espessura dos tecidos e trocando as golas altas pelos colarinhos de camisas brancas.

 

É inevitável o ar absolutamente vintage que contribui de forma decisiva para o seu encanto e fascínio.

 

O apelo a um dos meus mais queridos amigos não é inocente - raramente o sou. Existe porque me recordei que, quando lhe fizeram notar a indiferença com que tratava o seu guarda-roupa, respondeu de modo ambíguo e um bocadinho irritante:

- Se não ando atrás das modas, a moda virá atrás de mim.

A premonição acaba de se cumprir e, mais uma vez, o homem sorri desdenhoso e sobranceiro.

Nunca como hoje o allure masculino que nos empurra para um tempo quase proustinano foi tão reforçado e elogiado. Ser-se vintage é possuir um je ne sais quoi imprescindível a uma urbanidade que pretende ser cosmopolita e perene.

 

Esta busca de um tempo perdido está ligada, como não poderia deixar de ser, àquilo a que os peritos chamam frustração do presente e às convulsões e desilusões sociais e societais que invadem o quotidiano do mais comum dos mortais. Este retorno à uma ilusão de segurança e solidez passada pode ser insidioso, insinuado e insinuante, mas surge de forma clara na actualização, visível a olho nu, sobretudo das correntes de rua.

 

Cíclico e circular, até este movimento se faz ao som da Lei de Lavoisier, repescando e tornando actual a imagem vagamente anacrónica de um homem que acaba perseguido e apanhado pelas mais recentes tendências da ilusão dos trapos.

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8 rabiscos

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De Fatia Mor a 23.06.2016 às 11:31

Enquanto lia o texto pensava em quanto o dito amigo estava agora nos píncaros do desejável para um homem na moda. Resta saber se ele fugirá da tendência abarcando a última ou a próxima, numa tentativa de não obedecer aos padrões...
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De Gaffe a 23.06.2016 às 11:52

:)))

Não corremos esse risco. O homem não faz a mínima ideia do que é uma "tendência de moda". Veste-se e pronto. Fica sempre assarapantado quando lhe falam no assunto.
:)
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De Fernando Lopes a 26.06.2016 às 19:49

Como compreendo o seu amigo. Uma vez fui criticado pela minha mulher: «vestes-te como um lenhador». Imagine o que me ri quando, muito anos depois, veio a moda dos lumbersexuais. Ultimamente, correspondendo mais a um estado de alma que outra coisa, tenho recorrido sistematicamente ao preto, certo que mais tarde ou mais cedo virá a «moda» do negro. Um tipo não pode ligar a essas coisas, a sua individualidade é que determina a forma como se veste.
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De Gaffe a 27.06.2016 às 09:42

O que eu gosto do lumbersexuais!!!

O problema é muitas vezes a individualidade passa exactamente pela obediência cega a estes pequenas ditaduras.

O preto compromete imenso!
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De Maria Araújo a 26.06.2016 às 22:50


Desculpe, mas comparo este estilo de homem a cientistas loucos.
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De Gaffe a 27.06.2016 às 09:40

De génio e de louco, temos um pouco.
:)
Mas não. Este é só MA-RA-VI-LHO-SO.
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De Maria Araújo a 28.06.2016 às 23:58


Ok.
Por isso é um grande amigo.
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De Gaffe a 29.06.2016 às 00:14

Inigualável.

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