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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe quase de férias

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

M.S.

 

Aproximam-se as minhas férias. Três dias mais e parto.

É assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

 

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.  

Os planos de férias foram entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

 

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

 

Agora não.

 

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.   

O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.

Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.  

Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

 

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.

Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

 

Foto - Melvin Sokolsky (1933)

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Gavetas:


1 rabisco

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De Kalila a 26.07.2017 às 19:35

Muita da piada das férias é o planeamento e o sonho até lá chegar...
Pessoas assim tiram-nos parte do gozo...
Boas férias, Gaffe, não se deixe entorpecer!

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CorretorMais

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