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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe rapariguita

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Cresço tão devagar que há uma pequena rapariguinha sempre à minha porta, como se me viesse pedir qualquer coisa.

 

Já não me lembro como era. Já não me sei miúda e no entanto basta olhar para a rapariguita que à minha porta olha para dentro das coisas. Dentro dos olhos da menina eu apanho-me a crescer tão devagar que me sinto a pedir que me levem ao colo ou que me tragam doces de amora ou de cereja.

 

Às vezes não cresço nada. Fico igual à pequena rapariguita que vejo. Apetece-me jogar à cabra-cega pela vida fora. Deixar que me atem os olhos com um lenço branco - tem de ser branco - e continuar cega a tactear o escuro que vem dentro das caixas dos presentes de Natal até se desatarem os laços. Até que eu e a criança que me vem pedir coisas os desembrulhemos para soltar a luz cá dentro.

 

Às vezes cresço mais que a menina que me olha. Não gosto de crescer mais do que ela. Fico minúscula e assim minúscula não jogo à cabra-cega, porque o lenço branco que me tapa os olhos escorrega e deixa-me ver o chão onde pousaram os presentes de Natal ainda nus, sem laços, sem escuros dentro.

 

Já não sei se nós, eu e a pequena rapariga que fica sempre à minha porta, gostamos de crescer. Olhamos uma para a outra muitas vezes. Ela pergunta-me por mim, como se me viesse pedir qualquer coisa. Nunca lhe respondo. Não sei se cresci para lhe dizer que nunca me encontro, que não sei de mim, que talvez ela me traga no bolso, junto das nódoas de cereja e de fitas de cetim com que juntas atávamos as prendas de Natal.

 

Às vezes fica à minha porta, como se viesse pedir para não crescer.

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


19 rabiscos

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De Anónimo a 04.08.2016 às 15:14

Sonhos da menina

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?

Cecília Meireles
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De Gaffe a 04.08.2016 às 15:36

:)
Tão bonito.
Obrigada por me enviar Cecília Meireles.
Foi a poetisa de muito momentos da minha infância.
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De josef a 04.08.2016 às 16:13

eu sabia que ia gostar.
:)
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De Gaffe a 04.08.2016 às 16:35

Sabia também quem mo tinha enviado.
:)
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De josef a 04.08.2016 às 16:54

os ip's...
(mas eu tenho vários, o meu "matrix" é complexo)
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De Gaffe a 04.08.2016 às 18:42

Não, meu caro.
Os IP's são um brinquedo tolo de quem acredita no Pai-Natal.
Foi apenas o bom gosto.
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De josef a 04.08.2016 às 19:56

obrigado.
a menina merece o melhor.
:)
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De Corvo a 04.08.2016 às 16:33

Pode sempre, se quiser, conservar a rapariguinha consigo.
Proteja-a apenas escondendo-a das nuvens cinzentas.
Ela não precisa de as conhecer.
Muito bonito post. Gostei muito.
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De Gaffe a 04.08.2016 às 16:35

Obrigada.

Vou tentar. Tento sempre. Às vezes não consigo.
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De Cecília a 04.08.2016 às 16:58

se seguirem a vida sempre de mãos dadas, sorrindo, o equilíbrio está ganho.
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De Gaffe a 04.08.2016 às 18:39

Às vezes uma delas chora sem a outra saber.
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De Cecília a 04.08.2016 às 18:48

a outra sabe sem saber; abracem-se - experimentem.

Cecília
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De Gaffe a 04.08.2016 às 19:51

Às vezrs é difícil ser-se feliz com lágrimas.
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De Maria Araújo a 04.08.2016 às 17:31


Há uns meses, alguém dizia à mãe e à tia que não queria crescer.
Esse alguém, uma excelente aluna, acabou o 12º ano, não quer candidatar-se e não vai candidatar-se, está decidido.
Crescer custa, Gaffe.
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De Gaffe a 04.08.2016 às 18:38

Custa, sim.
Mas é imprescindível que se candidate. Às vezes é preciso exercer a chamada "tirania da autoridade dedicada". É necessário que se candidate ao ensino superior. Mesmo que depois o venha a abandonar. Não acredito muito nos critérios tão jovens e é forçoso que os tentemos amansar ou corrigir.
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De Maria Araújo a 04.08.2016 às 21:59


Não há volta a dar.
Ela não sabe que curso escolher, quer trabalhar, fazer alguma coisa e para o ano candidata-se.
A mãe dá-lhe apenas um ano sabático.
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De Gaffe a 05.08.2016 às 00:19

Fico sempre assustada com esses "anos sabáticos".
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De Maria Araújo a 05.08.2016 às 11:32


Também eu, Gaffe.
Dói-me o coração (percebeu que falo da minha sobrinha que costuma andar aqui por casa, aliás, desde que nasceu até hoje, fui/sou a segunda mãe).
Beijinho
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De sandrasofia a 17.08.2016 às 18:59

Já nem me lembro de metade das coisas que fazia em criança,tenho fraca memória,muito fraca mesmo!! O poema que te enviaram da Cecília Meireles é mesmo muito bonito!!

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