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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe rapariguita

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Cresço tão devagar que há uma pequena rapariguinha sempre à minha porta, como se me viesse pedir qualquer coisa.

 

Já não me lembro como era. Já não me sei miúda e no entanto basta olhar para a rapariguita que à minha porta olha para dentro das coisas. Dentro dos olhos da menina eu apanho-me a crescer tão devagar que me sinto a pedir que me levem ao colo ou que me tragam doces de amora ou de cereja.

 

Às vezes não cresço nada. Fico igual à pequena rapariguita que vejo. Apetece-me jogar à cabra-cega pela vida fora. Deixar que me atem os olhos com um lenço branco - tem de ser branco - e continuar cega a tactear o escuro que vem dentro das caixas dos presentes de Natal até se desatarem os laços. Até que eu e a criança que me vem pedir coisas os desembrulhemos para soltar a luz cá dentro.

 

Às vezes cresço mais que a menina que me olha. Não gosto de crescer mais do que ela. Fico minúscula e assim minúscula não jogo à cabra-cega, porque o lenço branco que me tapa os olhos escorrega e deixa-me ver o chão onde pousaram os presentes de Natal ainda nus, sem laços, sem escuros dentro.

 

Já não sei se nós, eu e a pequena rapariga que fica sempre à minha porta, gostamos de crescer. Olhamos uma para a outra muitas vezes. Ela pergunta-me por mim, como se me viesse pedir qualquer coisa. Nunca lhe respondo. Não sei se cresci para lhe dizer que nunca me encontro, que não sei de mim, que talvez ela me traga no bolso, junto das nódoas de cereja e de fitas de cetim com que juntas atávamos as prendas de Natal.

 

Às vezes fica à minha porta, como se viesse pedir para não crescer.

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Gavetas:


4 rabiscos

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De Maria Araújo a 04.08.2016 às 17:31


Há uns meses, alguém dizia à mãe e à tia que não queria crescer.
Esse alguém, uma excelente aluna, acabou o 12º ano, não quer candidatar-se e não vai candidatar-se, está decidido.
Crescer custa, Gaffe.
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De Gaffe a 04.08.2016 às 18:38

Custa, sim.
Mas é imprescindível que se candidate. Às vezes é preciso exercer a chamada "tirania da autoridade dedicada". É necessário que se candidate ao ensino superior. Mesmo que depois o venha a abandonar. Não acredito muito nos critérios tão jovens e é forçoso que os tentemos amansar ou corrigir.
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De Maria Araújo a 04.08.2016 às 21:59


Não há volta a dar.
Ela não sabe que curso escolher, quer trabalhar, fazer alguma coisa e para o ano candidata-se.
A mãe dá-lhe apenas um ano sabático.
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De Gaffe a 05.08.2016 às 00:19

Fico sempre assustada com esses "anos sabáticos".

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