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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe refugiada

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.16

Richard Avedon, Liz Pringle, Jamaica, 1959.jpg

A Gaffe deu conta que uma enchente de crianças vai levar para a escola, na mochila, o que consideraria absolutamente necessário se pertencesse a uma multidão de refugiados.

 

É uma iniciativa que embora contenha uma acentuada vertente pedagógica, acentua e torna visíveis desigualdades que podem traumatizar os petizes. Os escuteiros, com os seus pauzinhos de gelados com que constroem jangadas, vão fazer um brilharete perante as meninas que escolheram as Barbies – as clássicas, não as gordas, pretas e baixas que neste caso podem contar como solidariedade na desgraça – ou na frente dos meninos que seleccionaram o bollycao e o cachecol de caxemira.

 

Urge definir níveis de assertividade para que os Lobitos sejam de imediato aceites como exilados políticos, subsidiados e elevados ao quadrado que se encontrar disponível e os outros encafuados nas tendas que com certeza os professores terão a originalidade de executar com lençóis velhos e cavacos podres.

 

A par desta iniciativa, uma outra se avista. Várias figuras públicas fazem o mesmo, embora sem a maçada da mochila às costas. Basta que refiram as suas escolhas com um ar quem se vai desfazer em lágrimas a todo o momento.

A Gaffe ouviu apenas três. António Mega Ferreira, Catarina Furtado e Herman José que lhe pareceram flutuar a alguns metros do chão, com algumas nuvens fofas enfiadas nos pés.

 

Comum aos três é a eleição do telemóvel. Uma escolha primorosa, tendo em conta que poderiam publicar no facebook as fotos do afogamento dos colegas que não se agarraram em condições ao bote de borracha ou à pila do nigeriano mesmo ali colado e twittar o instante em que o colete salva-vidas se encheu de mar. Seriam refugiados do WiFi, mas que não deixariam de apelar a MacGyver na procura de buraquinhos para carregar baterias ou a fintar o roaming na Turquia.

 

Há, como seria de esperar, particularidades. Mega Ferreira escolhe, por exemplo, D. Quixote de Cervantes - há sempre tempo para ler, mesmo nestes instante, não é? Um livro é sempre uma fuga, uma libertação e ajuda imenso! -, um pacote de leite, uma muda de roupa. Não é um refugiado. É um amante de uma noite de motel, nerd e com insónias. Seria preferível trocar o pesado Cervantes - nada aconselhável em barquinhos de papel - por Margarida Rebelo Pinto. Habituada a meter água, Rebelo Pinto aprendeu a funcionar como um balão de hidrogénio numa festa de crianças.

 

Catarina Furtado escolhe, entre outras coisas que a Gaffe já esqueceu, um bloco e qualquer coisa que escreva. Com lágrimas nos olhos, Catarina arrasta consigo a vontade de registar o balanço do oceano de forma diferente da do seu antecessor. Há no entanto duas referências dignas de nota. Uma aos papéis do Panamá - recordando que é filha de jornalista - e outra mais literária, se imaginarmos Catarina a salvar das vagas o seu Moleskine tão bem escrito. Não conseguimos deixar de a comparar a Camões salvando Os Lusíadas.

 

Herman José, o queridíssimo Herman José, refere querer na sua mochila Louis Vuitton imaginária uma lâmpada mágica cujo habitante permitisse o único desejo de não haver, nunca mais, refugiados. A Gaffe quase que o vê a abanar a faixa de Miss Simpatia e - muito pouco civilizada, é bom que se diga - lembra-se da anedota ordinária que ouviu um dia e que falava do homem que libertou o Génio da Lâmpada a quem pediu para ter uma pila que lhe tocasse nos joelhos. O Génio concedeu-lhe o ansiado e as coxas do homem desapareceram.

 

A Gaffe acha moderníssimas e muito originais estas iniciativas. Ficamos todos a saber o que os nossos famosos consideram ser um refugiado sem ser pelas revistas cor-de-rosa e por alguns instantes acode-nos à lembrança o que no nosso caso recolhíamos.

 

A Gaffe já decidiu:

- Uma passagem em executiva para a Jamaica;

- O número de uma conta offshore;

- A Vogue, que uma rapariga tem de se entreter durante a viagem.

 

O resto virá no porão.

 

Foto - Liz Pringle por Richard Avedon, Jamaica, 1959

 photo man_zps989a72a6.png


10 rabiscos

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De eduardo a 06.04.2016 às 13:00

é por isso que insisto em visitar a menina
aprecio este seu dom espalhafatoso em f*der a etiqueta da elite do banal
e porque tem um escrita limpa e jamaicana em momentos de maior lucidez
e agora se me dá licença retiro-me porque há compras a fazer e se não me despacho o dinheiro evapora
é um budget ridículo é o que é mas é o que há
a liz está com um ar um pouco pringles não lhe parece?
sei lá bjs
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De Gaffe a 06.04.2016 às 13:36

:)))
Obrigada, meu querido Eduardo. Gostei do asterisco.
A Liz sempre foi um bocadinho "pringles". Disfarçava é bem.
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De cecília a 06.04.2016 às 13:59

é incrível como cada qual não se lembra do seu chihuahua!

a querida gaffe sempre na mouche
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De Gaffe a 06.04.2016 às 14:43

Oh!
Até eu me esqueci do bicho!
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De Corvo a 06.04.2016 às 18:22

Muito bom, Gaffe : muito bom mesmo.
É espantosa a maneira como gente "bem" sabe, com uma clarividência muito para lá de nós, meros mortais, resolver num ápice os problemas que não lhes dizem particularmente respeito.
Catarina, a inefável e generosa Catarina. Deus a abençoe.

Agora, a Belle não diz mas ainda hei-de deslindar o enigma do imutável ódio de estimação com que tão simpaticamente mimoseia a MaGraFrida.
Até nem escreve mal, a moça.
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De Gaffe a 06.04.2016 às 18:48

Escreve tontices e repete-as "obra" após "obra".
Mas não é "ódio de estimação". É mais urticária.
Seja como for, há razões que a própria razão desconhece.
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De Maria Araújo a 06.04.2016 às 23:21


Muito bom, Gaffe, como sempre.
E gostei do "ingredientes" da sua mochila.
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De Gaffe a 07.04.2016 às 09:19

O restante vai no porão.
;)
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De Quarentona a 07.04.2016 às 06:53

Já te disse que gosto tanto de ti?! Olha, cá eu metia-te na mochila ;))))
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De Gaffe a 07.04.2016 às 09:18

:)
Obrigada! Também gosto de ti. Tu sabes...

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