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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe repórter

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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Pouco tempo depois de Abril de 74 – contava o meu avô, que se divertia sempre que o fazia -, uma jornalista toldada pelas renovadas atmosferas, trepava às montanhas e aos penhascos para mostrar ao país a miséria em que o povo se encontrava. Entusiasmada, eufórica, nervosa, revelava o estado de total analfabetismo que se instalara, durante o tempo das trevas, nos montes e nas serras dos degredos. Uma torrente de escandaloso choque. Na breve entrevista que fez a uma velhíssima senhora de lenço preto a amarrar-lhe as rugas, repetiu afoita as sacramentais perguntas.

Sabe o que é o fascismo? Sabe o que é a Assembleia da República? Sabe o que é um deputado da Nação?    

A senhora não sabia.

Sorria mateira e a meio do difícil questionário, decidiu que era altura de calar a trepidante repórter.

- E a menina, sabe o que é um almude?

 

Cerca de quarenta anos depois - mais coisa, menos coisa, que não sou rigorosa -, a notícia chega nos solavancos fonéticos, nos disparos silábicos de uma histriónica jornalista que ameaça saltar dali e nos pregar dois estalos se não lhe prestamos a devida atenção:

Cerca de vinte crianças foram atendidas nas urgências da Unidade de Saúde com sintomas suspeitos de intoxicação.
A peça corre mostrando a nauseabunda porta da Urgência carcomida onde se amontoam uma dúzia de senhoras desgrenhadas e outros tantos cavalheiros de sorriso alarve e telemóvel em punho.


- As raparigas sentiro uma comichice e depois ficaro com impalas no corpo. (Aluno da Escola atingida).
- Eu tenho três piquenos e ambos os três ficaro comichosos e com falta de ar. (Encarregado de educação).
- Não é nada grave! As crianças chegaram aqui mortas por se ir embora. (Chefe dos serviços de urgência).
- Eu acho que foi porque metem muito alho no comer da cantina. (Encarregada de educação).


Na estação concorrente dá-se novas do incêndio numa fábrica de produtos químicos, que, à semelhança de todos os outros, é dramático e desolador.

O repórter, de microfone em punho e olhar de fanático possuído pelos demónios da adrenalina ou já toldado pelos vapores tóxicos libertados, teima em recolher os depoimentos da população:
- Só se ouvia pum, pum, pum, pum, pum, pum... ... – insiste um senhor de olhar distante e dentes podres.
O jornalista esperava um pum maior ou então que se esgotasse a cadeia dos pequenos.
- Como é que ficou a saber do incêndio? – resolve perguntar à senhora de óculos bifocais e gengivas sem dentes.
- A minha filha telefonou a dizer-me – esclareceu a mulher de olhos fixos na câmara.
- E o que foi que lhe disse a sua filha? - Insiste o repórter, nervoso e expectante.

- MÃE, ANDA CÁ DEPRESSA QU’A FÁBRICA ESTÁ A ARDER!  – brada, monocórdica, a senhora de gengivas rosa e óculos bifocais.

 

O manquejar jornalístico tem, como se lê, tradições que vão perdurando.

O analfabetismo - em todos os seus versículos - também, mas tal se tornará uma outra história.

 

Lembrei-me destes pícaros episódios quando, há cerca de dois dias, cinco canais de televisão acompanhavam em directo um autocarro que transportava jogadores de futebol do hotel para o estádio - e com recurso a drones, não se vá perder o topo do veículo.

Sendo que, agudizando a gravidade do ocorrido, me dizem todos – sobretudo os que o perderam -, o jogo não era significativo, valendo um pechisbeque nas agendas apopléticas dos campeonatos, a transmissão torna-se então a indigência bacoca do jornalismo televiso em todo o seu esplendor.

 

Dir-se-ia de interesse público acompanhar o Sporting no seu trajecto rumo a uma humilhante derrota – Deuses! Os rapagões foram cilindrados por cindo golos! Mesmo para uma leiga como eu, digam o que quiserem, esta quantidade de desastres sofridos num só joguito é sinal evidente e confrangedor de mediocridade. Numa inversão da clássica arena romana, os leões são trucidados e comidos pelos gladiadores.

Dir-se-ia que tem repercussões nacionais observar a saída dos jogadores do Benfica do autocarro do amor, pé ante pé, olhares de soslaio à conta das divas, sobrancelhas cuidadas e depiladas as pernas, não vá o país perder as gravatas timbradas e os passarinhos de raminhos de louro nos biquinhos, ou o chispar charmoso das primeiras entrevistas do Sporting que nos informam que este vai ser um jogo difícil, a equipa adversária é boa, mas vamos lutar pela vitória.    

 

Podemos dizer o que quer que seja, que tudo se consegue mergulhar na plácida superfície da penúria analfabeta - e desonesta - que perdura há várias décadas no jornalismo - português em particular, pois que é dele que se fala.  

 

É evidente que se pode recusar este pindérico - e perigoso - modo de se mostrar o mundo. É evidente que existem abertos outros canais de informação absolutamente dignos.

 

Mas sejamos honestas, minhas queridas, sem esta espécie de estupro televisivo e telegénico, não conseguiríamos avaliar condignamente a envergadura e a potência anímica de atletas como o da imagem – não interessa nada saber quem é, a quem pertence, ou se equipa é unida e vai lutar pela vitória, pois que já sabemos de antemão que sim -, nem seríamos capazes de prometer uma sacrificada ida a Fátima, de rastos, se os rapazes cumprirem dentro do campo o que repetem até à eternidade aos microfones, mesmo não sabendo o que é um almude, ou desconhecendo se o comer quer alho.

 

Curioso! Nunca mais ouvi Mariza! O que será feito do fado?    

 

Na fotografia - Ruben Loftus-Cheek do Chelsea

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