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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe respeitosa

rabiscado pela Gaffe, em 25.03.20

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Morreu a Natércia com oitenta e quatro anos, prostituta asseada, que sabia estar, dizem as mulheres que a conheciam, vizinhas respeitadas e respeitadoras de rua esconsa e negra com casas rasas de begónias raquíticas no parapeito da janela.

Tinha a Natércia um cognome quantitativo. Dois dígitos que indicava certeiros o número de clientes que tinha despachado numa só tarde, ou numa só noite, pois que as fatias de tempo ficam misturadas nestas lides.

 

Conheci a Natércia reformada.

 

Magrinha e pequena, mas muito ágil e muito rija. Olhos pequenos e unidos, símios, boca agigantada por belos dentes brancos, permanente no cabelo curto e já grisalho, ainda bem feitinha, bem vestida e muito combinadinha. Trazia sempre um xaile de lã cruzado no peito. Um xaile bonito. Colorido. Suponho que para disfarçar a cor do coração. 

Era altiva, destemida e corajosa, mas havia no olhar e nos gestos contidos um susto indefinido, um medo calado que se imiscuía na consciência da ruptura com a seriedade, honradez, bom comportamento e bons costumes que, como nos dias de enxurro, jorravam como água enlameada nas ruelas das vizinhas. 

 

Nada a distinguia das outras mulheres que a estimavam porque queriam muito acreditar que os seus homens não eram aceites pela calada das noites das tardes da Natércia que nunca os cumprimentava, olhando-os de lado e com rispidez, em frágil disfarce de indiferença que, como todos os fingimentos que agradam como mimos da verdade, se tornava um facto demasiado à força e, como tal, suspeito.

 

Morreu durante o sono, de coração esgotado, a Natércia, depois de ter vivido oitenta e quatro anos respeitados, sós, autónomos, consistentes e conscientes. Nunca se submeteu à clientela. Nunca permitiu a expropriação da sua dignidade. Nunca autorizou o despojamento da sua privacidade ou a degradação da sua intimidade. Sempre foi melhor e maior do que os homens que lhe conseguiram apenas apensar um número ao nome, cavando a falsa sensação de domínio através da alusão aos abusos consentidos numa noite só. Eram as outras mulheres, as mulheres deles, que se encarregavam, em mesureiro trato, de a amarrar, cravar no chão e passar por cima.

 

Com todo o respeito, todo o respeitinho.

 

Há um rasto de sombras profundamente errado nesta espécie de estima respeitosa, neste cultivar da sensação de pertença comunitária e nesta forma de inclusão colectiva - defensiva, igualitária, ilusória -, que em simultâneo obrigam e amarram a um auto-isolamento capaz de, no fim, fazer reter na memória do outro apenas o número de clientes de uma tarde. 

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Gavetas:


2 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 25.03.2020 às 21:59

Se há coisa boa (?) que o sacana do vírus trouxe foi a antagónica capacidade de nos aproximamos no afastamento.
É essa sensação de pertença comunitária que nos vai mantendo à tona.
Ou então não é nada disto e são só os 12 dias sem abraçar os meus a fazer mossa.

Obrigada por me recordares que ainda sou gente.
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De Gaffe a 26.03.2020 às 09:24

Como é possível ser necessário alguém para te recordar que és Gente?!?!?

Exactamente! A antagónica capacidade de nos aproximamos no afastamento, pode provocar nódoas na alma, como as que provocou nesta mulher.

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