Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe russa

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.18

I. Ilitch.jpg

A esmagadora percepção da minha absurda leviandade, da minha tonta irresponsabilidade, do meu fútil viver e da minha vazia insignificância, chega de repente e deixa-me sozinha, inútil.

 

Tenho na mão o fino livro que retirei do móvel e a tempestade desabou, sem freio, destelhando a choupana que habito, rainha destronada de mim, senhora exilada de timbre no envelope, princesa imbecil de poentes desenhados.

A implacável certeza da minha incapacidade de me elevar ao patamar destas mulheres. Uma depois de outra, há tanto tempo.

 

O livro que se espera - pois que se olhou para os outros -, reflexos do pensado por senhores, perucas brancas empoadas e alma desbravadas de poeiras, varandas debruçadas sobre iluminismos, saltitos de gazela sobre palcos, sonetos de intricados versos ou tão somente a história de algum santo - tudo francês -, é a subliminar mensagem que - estou certa - se destina a mim, que gracejo, zombo e escarneço do que é meu, profundamente meu, sem eu saber, sem eu cuidar, sem eu de joelhos respeitar.

 

La mort de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

A estilhaçar a redoma de certezas do meu mundo.  

 

Imagem - Carolus-Duran

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


18 rabiscos

Imagem de perfil

De cristinita a 04.12.2018 às 11:27

Passei por aqui para te desejar uma excelente terça-feira,tudo de bom para ti!!
Imagem de perfil

De Gaffe a 04.12.2018 às 11:43

Gentil.
Mas não é necessário teres esse incómodo.
:)
Obrigada.
Imagem de perfil

De cristinita a 04.12.2018 às 11:52

A gentileza é uma coisa muito bonita!! De nada,não é necessário agradeceres!! Não é incómodo nenhum,aliás,até é um prazer!!
Imagem de perfil

De Gaffe a 04.12.2018 às 12:13

Sim.
Mas não é de todo necessário, acredita.
Obrigada.
Imagem de perfil

De Corvo a 04.12.2018 às 14:29

Imagino a senhora sua trisavó como uma beleza calma e serena, corpo etéreo em perfeita consentaneidade com a vida e as coisas.
Do Céu recebe um beijinho.
Imagem de perfil

De Gaffe a 04.12.2018 às 14:48

Não sei se em perfeita consentaneidade com a vida e as coisas.
Agora sinto que escondia uma angústia indefinida. Agora sei que havia sombra na sua calma e serenidade aparentes.
Imagem de perfil

De Vorph "ги́ря" Valknut a 04.12.2018 às 23:26

As calmas genuínas são sempre perigosas indiferenças.
Imagem de perfil

De Gaffe a 05.12.2018 às 09:17

Por vezes.
Nem sempre.
Consigo identificar a indiferença como o inverso do amor.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.12.2018 às 14:30

Assim sendo, são expectáveis ritmos, prefixos e sufixos que transformarão, e sustentarão, sentimentos simples em grandiosidades imensuráveis. A mestria e a minúcia da linguagem escrita que parece, em cada andamento, retirar-nos qualquer suspeita de que na realidade não possa ser assim, a Gaffe já tem.

( isto para dizer, despudoradamente, que a Gaffe foi de longe a minha blogger favorita do ano que a apressa a findar.)

Aceita um abraço Impontual?


Imagem de perfil

De Gaffe a 04.12.2018 às 14:44

Aceito o seu abraço (pontual ou impontual), absolutamente grata e absolutamente lisonjeada.

Aceite por favor um beijo meu.
Imagem de perfil

De Gaffe a 04.12.2018 às 20:26

Apaixonei-me pelo seu velho luxuoso.
Sei que há pouco sol, mas se até no sol há sombra.
Imagem de perfil

De Corvo a 04.12.2018 às 15:56

Então e agora respondendo à encantadora Cristinita, cuja - insignificante e facilmente ultrapassável, assim o desejo, - desolação pela impossibilidade de leitura ao meu blog, passa-se o seguinte.
Mas antes e para uma eficiente compreensão dos factos: não que não acredite que tudo possa na mesma ser compreendido sem esta precaução mas para dissipar quaisquer dúvidas, prováveis ou recém-nascidas em certas alminhas malévolas, - se bem que provavelmente tal precaução peque por exagerada já que segundo reza a história blogueana; não confundir com o blogue da Ana, tais espécies pereceram por inanação, ou carência de pasto, vá-se lá saber. Mas...onde nós íamos? Ah, pois: dizia então que antes de te dizer por que motivo o meu blog se encontra hibernado, certas explicações deveriam, e devem ser explicadas ao mundo expectante.
Primeiro a atroz directiva de encerramento do blog, que muito a contragosto e profundamente indignado fui obrigado a tomar logo após chegar ao meu interessado conhecimento a "infame" selecção de "certos inúteis e fúteis blogs," - para ser mesmo verdadeiro todos eles, - para eleger entre tanto desinteresse literário o blog do Ano sendo o meu votado ao ostracismo.- Num à parte e porque a indignação o justifica; ficas marcada para a eternidade, Magda.- Está bem que o tranquei um pouco antes desta "nefasta e ignóbil" selecção, mas eu já estava a ver no que é que isto ia dar. A ver se não tinha razão.
Portanto e para que conste, o encerramento do meu blog deveu-se unicamente e só a mais uma vez ter sido vítima inocente da compreensão humana.
Isto explicado, e porque entendo ser de toda a justiça que o mundo o saiba, avancemos para outras incongruências blogeanas Ruivianas. Talvez não entendas agora mas eu explico-te num ápice e passas a entender tudinho.
Diz-te a Gaffe, (ruiva), secundada pela Pequeno caso sério, (outra ruiva) - que se não é pela harmonia de trato e comunhão de ideias entre ambas mais parecendo uma fonte única, límpida e cristalina derramando mel,- que se não é ruiva, dizia, para lá atira; que dormir muito faz crescer.
Não acredites nelas Cristinina; isso são conversas de ruivas. Como se por muito dormir muito se cresce. Elas limitam-se numa concordância generalizada, - mais exagerada quando se tratam de ruivas, - mas nunca uma verdade incontestada.
Para mais agora com este frio danado em que uma pessoa dorme toda encarquilhada que nem um novelo de lã. No Verão em que a pessoa se pode esticar bem é que, eventualmente e em raros casos, a coisa pode resultar
Em todo o caso quer no Verão ou no Inverno só há uma verdade. Quem muito dorme pouco vive.
Ruivas; vá-se lá a gente fiar nelas.
É isto. Por isso tranquei o meu blog.
Também te desejo um Feliz Dezembro, e não só este como todos os outros meses da tua vida.

Imagem de perfil

De Gaffe a 04.12.2018 às 16:23

Em resumo:
Porque lhe apeteceu.
Imagem de perfil

De Corvo a 04.12.2018 às 16:49

Ou isso.
:)
Imagem de perfil

De Vorph "ги́ря" Valknut a 04.12.2018 às 23:28

Não querendo recorrer à Wiki, Ilitch era o parente russo de Lear, correcto? O abandono, a falência declarada num final de vida? Tal como Tolstoi, abandonando num banco de "jardim"
Imagem de perfil

De Gaffe a 05.12.2018 às 09:24

Não creio.
Em Lear a queda tem origem num erro trágico. Em Ilitch é a Inevitabilidade que conduz o movimento em todos os seus compassos. Não existe o enlouquecer em Ilitch. A loucura não é um luxo que possui e de que usufruiu Lear. Ilitch morre lúcido. Terrivelmente lúcido.

(Não recorra à Wiki!)
Imagem de perfil

De Vorph "ги́ря" Valknut a 05.12.2018 às 10:36

Ficasse Ilitch lúcido mais cedo e teria terminado louco. Há loucuras que são precoces abrir de olhos
Imagem de perfil

De Gaffe a 05.12.2018 às 11:14

Ou desistências cegas.
:)

Comentar post





  Pesquisar no Blog

Gui