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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sagrada

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.16

ed van der elsken.jpg

A minha memória alberga algumas imagens que dificilmente poderei traduzir.
São sempre deslumbrantes, que as más empurro para longe, desmembro e enterro nos ermos da minha alma.

 

Uma dessas luminosas recordações tem a minha mãe como uma das personagens principais. 
Vejo-a embevecida abraçada à cabeça do meu irmão que arde em febre.
Pálido e indefeso, o homem tinha adormecido e a minha mãe olhava aquele gigante que escaldava, dócil e agreste, que lhe tinha pousado no regaço.


É uma imagem muito próxima da iconografia do sagrado.
Há muito de ilusório nesta memória, porque, como diz o meu amigo, sempre que recordamos uma coisa, tornamos a vivê-la de modo diferente, mas aquela tarde em que a febre não baixava e ameaçava incendiar a casa e em que a minha mãe se transfigurou e mais uma vez revelou uma alma capaz de servir de colo, vai ficar no meu peito como a medalhinha de ouro que se traz ao pescoço presa num fio.


Há memórias que são como orações.  

 

Foto - Ed van der Elsken, 1956

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


9 rabiscos

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De Corvo a 24.06.2016 às 12:39

Pois, Gaffe...pois.
Um Abraço muito sentido para si.
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De Gaffe a 24.06.2016 às 14:00

Merci.
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 24.06.2016 às 13:01

Gostava de preservar melhor algumas memórias, algumas já começam a desvanecer. Gostaria de viver nelas, ainda que por breves momentos, o suficiente para uns abraços.
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De Gaffe a 24.06.2016 às 14:00

Todas as memórias que valem a pena permanecem depois daquilo que acabamos por esquecer.
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De M.J. a 24.06.2016 às 14:39

gosto de ti.
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De Gaffe a 24.06.2016 às 15:58

"Moi non plus".

:)*
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De Pequeno caso sério a 25.06.2016 às 00:10

(...)"Sempre que recordamos uma coisa tornamos a vivê - la de forma diferente " (...)

Nem sempre minha amiga.
Há memórias que ficam presas em nós e, mesmo não querendo, recorrem - nos sempre iguais.
A memória é uma faculdade muito pouco obediente e às vezes basta um cheiro , um som , um vulto e ...lá voltamos a "viver" tudo igualzinho...como se fosse a primeira vez.
É nessas alturas que o "colo da mãe" se torna o melhor lugar do mundo para se estar ( seja ele no regaço, na medalhinha que se traz ao pescoço ou nas "fotografias" que tiramos com o coração ).
; )

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De Gaffe a 25.06.2016 às 01:15

Não sei. Sempre acreditei que a memória é o risco que fazemos no pó antigo. Fica o desenho, o traço, mas a madeira não foi riscada. A memória é sempre um traço na superfície que não tocamos.

O teu comentário é belíssimo. Obrigada.
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De Maria Araújo a 26.06.2016 às 22:36


Um post rico em imagens, que prefiro não comentar, porque nada me sai.
Fica na minha memória visual, o retrato da mãe

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