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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem casa

rabiscado pela Gaffe, em 05.01.16

casa.jpg

Esta casa foi adquirindo uma entidade própria e uma determinação indómita. Foi, enquanto o tempo avançava, sobrepondo o desejo das pedras à vontade dos donos de modo que se deixou de perceber quem dominava quem. Como no poema, o senhor torna-se servo, por amor.

 

Esta casa foi construindo as ordens, foi solidificando o poder da pedra sobre a carne, foi erguendo o seu esmagador domínio sobre os que a deixaram de ter, porque ela os tem.

Decide quem entra, escolhe quem será expulso e responde agressiva àqueles que sem o seu consentimento se atrevem a passar. Nunca passam se forem ameaça. Nunca passamos se lhe causarmos ciúmes. Não somos acolhidos se arriscamos o amor dos que são dela.

 

A casa contém o interdito e cuida dos fantasmas. Não permite a invasão da mais ínfima partícula de Esperança. Impede a luminosidade dos pássaros e a cumplicidade dos amantes.

 

Como se ficássemos sempre a dois palmos do portão.

 

Depois da minha avó partir, deixou de ter alguém a combater as pedras.

 photo man_zps989a72a6.png

Gavetas:


2 rabiscos

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De eduardo a 05.01.2016 às 23:39

olá
ao ler este texto lembrei-me de imediato de um filme de animação monster house /a casa fantasma
o curioso e contraditório é que sempre imaginei o oposto embora nunca tenha sido visita do espaço nem irremediavelmente expulso por motivos invasores ou ciumentos de qualquer espécie e não conheço nem de perto nem de longe os personagens dos seus habitáculos
posso estar enganado mas sempre considerei as fotos referentes àquilo que suponho mansão as mais bonitas ilustrações dos seus textos
é verdade que as pedras também têm sentimentos e transmitem as sensações que os humanos consideram seu apanágio
sabe disso quem gosta de edifícios e se apaixona facilmente por estruturas cravejadas de materiais de primeira classe que acabam por revelar-se de primeira necessidade por não ser possível confundi-los nem fazê-los obedecer
as lendas e narrativas impõem-nos casas nas árvores e eu não digo que não porque sou do tipo que gosta de se empoleirar e fazer balançar os ramos e sentir-se penetrado pelo ruído seco e castiço da folhagem
posso fazer de conta também porque sou mais onírico do que devia que transponho o portão agrilhoado porque depois de tanto combate um bom par de tréguas sabe a douro essencial entre paredes com direito a repousar no cadeirão
feliz ano novo
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De Gaffe a 06.01.2016 às 10:27

A minha avó dizia que naquela casa ninguém morria. As pedras retinham os que partiam. Se andássemos descalços, podíamos sentir o bater dos corações.

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