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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem Cohen

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.16

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Leonard Cohen prolongava sempre as minhas noites com uma das minhas canções predilectas, Dance me to the end of love, e sempre me paralisava de espanto com o belíssimo friso do poema:

 

Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love

 

Acredito que esta preciosidade não podia ser cantada a não ser por Cohen.  

Apesar de todas as palavras na incrível voz deste cavalheiro terem adquirido um poder sedutor incomparável, é neste pedaço de génio poético entoado por Cohen que a canção parece reflectir uma melancolia redescoberta em toda a sua obra, uma perfeita frase melódica dentro de dois braços finalmente encontrados, com a mais subtil desesperança ou a mais frágil das promessas enluvadas e quebradiças súplicas.

 

Cohen entregava à palavra um traço de incerteza, a mácula quase imperceptível do desassossego, a suspeita da condenação irremediável do abraço dos amantes que se prendem no enredo da melancolia e na vontade desesperada de acreditar que se pertence a alguém.

As canções de Cohen não são apenas e sempre uma declaração de amor, belíssima. São também o esconderijo do medo de o perder.

 

Talvez por isso a minha noite tenha agora acabado antes de lhe ouvir bater o coração prolongado.

 

Foto - George Brassaï

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