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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem expressão

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.14

SLandry_RockCrab.jpgPorque o assunto me é particularmente importante, li aqui com atenção e muito apreço os oito conselhos que contribuem para a detecção precoce do cancro da mama (o 4º e o 8º ajudam também quem sofre de prisão de ventre).

 

Nunca é demais divulgar estas regras.

 

Embora corra o risco de voltar a irritar os mais sensíveis como já o fiz outrora, levantam-se na minha frente dois senhores que respeito imenso. Nietzsche e Sobrinho Simões.

O primeiro refere, de dentro do seu bigode:

Cuidado com a fúria dos homens pacientes.

Sobrinho Simões para além de ser um sapientíssimo médico é também um admirável professor e um homem paciente. A fúria raramente é desperta, mas uma das chispas que o incendeia é sem dúvida a expressão que foi usada – derrotar o cancro.

 

Ninguém derrota o cancro. Ninguém é o vencedor.

A doença é tratada de acordo com o estádio em que se encontra e das características específicas de cada paciente. Sobreviver ou não, depende de variadíssimos factores, internos e externos, que não é lógico referir aqui, mas nunca da capacidade de se ser forte ou fraco no sentido que parece advir da expressão e que penaliza gravemente aqueles que sabem que não vão resistir.

Depende também, e em grande dose, da sorte.  

Derrotar o cancro, acaba por ser uma arma demasiado afiada para ser suportada pelas mãos dos que sabem que se vão perder e uma espécie de traição para os que esperam continuar, mesmo quando o caminho já está irremediavelmente minado.

É evidente que se trata apenas de uma expressão. É evidente que pode ser considerado um exagero preocuparmo-nos nestes casos com escolhas semânticas ou com manigâncias de comunicação, mas este cuidado não é excessivo quando implica a evidência da morte ou a vontade tantas vezes inconsequente de viver.

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11 rabiscos

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De M.J. a 07.11.2014 às 14:30

mas derrotar o cancro pode ser uma magnifica frase no curriculo de quem o ultrapassa.
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De Gaffe a 07.11.2014 às 14:42

Claro que sim. Mas que, de algum modo, fique só escrita o que seja substituída por "sobrevivi" ou "tive sorte". Dói menos, creio eu, para os que não o vão "derrotar".
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De M.J. a 07.11.2014 às 14:48

concordo. mas há uma tendência forte em sobrevalorizar quem sobrevive e menosprezar quem não o consegue.
talvez por um acto de... esperança?
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De Gaffe a 07.11.2014 às 14:55

Ou de sobrevivência, ou do "salve-se quem poder", ou da recusa inconsciente da morte, ou da fuga para frente, ou ...

Não sei.

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De M.J. a 07.11.2014 às 14:57

não sabemos.
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De bloga-mos a 07.11.2014 às 17:17

Vocês nunca me dizem onde moram esses patifes que fazem mal às pessoas de bem para eu lhes tratar da saúde com o meu arsenal de kryptonite...
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De Gaffe a 07.11.2014 às 21:10

Juntas, estas duas meninas, são pura Kryptonite.
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De Fernando Lopes a 07.11.2014 às 19:24

Acabas de dar um K.O. a todos os Manueis Forjaz desta vida que acham que se «luta» com o cancro. É recorrente ouvir dizer «vou derrotar o bicho». A animalização de uma doença ou encará-la como um combate sempre me fez confusão, mas se as pessoas se sentem reconfortadas deste modo, who cares?
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De Gaffe a 07.11.2014 às 21:09

Claro que sim.
Creio que me habituei a ter mais em atenção a prespectiva daqueles que ainda estão doentes.

De Anónimo a 07.11.2014 às 23:52

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De Gaffe a 08.11.2014 às 20:44

Eu sei. Sigo-o com muita atenção.
Compreendo que tenha menos força, mas não acredito que isso seja um entrava para si.
:)

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