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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem preço

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.17

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Não creio que se deva ou se possa impedir alguém de alcançar uma vitória ou atingir determinado objectivo, apenas porque é portador de determinada característica que potencia as hipóteses de sucesso ou que, de ânimo leve e consciência limpa, se possa anular a candidatura à vitória do que possui um dado específico ou eventualidade genética que o coloca de imediato na linha da frente dos pretendentes mais lógicos.  


Não afastamos, por exemplo, ninguém da competição, com desdém e sobranceria, apenas porque o indivíduo em causa mostra que tem um inato e descarado talento, um incontornável e descontraído virtuosismo, perante um outro, menos genial e menos bafejado pela sorte ou pela lotaria dos genes, mesmo que este arraste consigo um sistemático esforço, um constante labor, um suadíssimo e encarniçado trabalho de bastidor.

 

A beleza, feita de carne e de imaginação, é um factor gratuito que chega sem contar para nos colocar nos lugares onde a vitória é mais previsível, mas que cobra esse privilégio sem qualquer tipo de condescendência.
O preço é real e muitas vezes inclui o retorno inflamado daquilo que é dado e, ao contrário do esperado, quem o costuma pagar é o vencedor.
É uma arma que dispara do mesmo modo que o talento, a inteligência ou o mais elaborado dos esforços e, como tal, deverá ser considerado legítimo o seu uso na procura eventual da vitória e abertamente aceite o seu efeito potenciador de sucesso.


Pode não usar o mesmo gatilho usado pelas outras, mas supera-as muitas vezes no resultado obtido.


Não é de todo condenável que se use consciente e deliberadamente na guerrilha da vida as armas que nos foram entregues pelos genes.
O uso do poder de atrair, a pele e o sorriso, podem emudecer as mais argutas análises, podem calar as mais estudadas e sapientes conclusões que contra nós afiam dentes e navalhas.
O uso da capacidade que a beleza tem de se tornar obstáculo aos mais matemáticos estudos, às mais complexas equações, aos mais racionais argumentos, às mais límpidas demonstrações que nos negam e reprimem, não pode ser proscrito.
O uso da evidência do que é belo preso em algodão macio para destruir o que nos impede de morder maçãs proibidas, não é de descurar.
O uso da agilidade de todos os músculos que temos para domar a rigidez das decisões que não interessam, deve ser considerado como viável e certeiro.

A beleza funciona assim e desta forma como uma alavanca, um impulso consciente, um corte de caminho, para que às nossas mãos chegue aquilo que desejam.


Nestes processos é condição essencial - quando as armas que empunhamos são por norma as que maldizem -, que seja divertida a consciência desse uso e aguda a certeza de que o fazemos bem, sem escrúpulo algum, sem nenhuma espécie de demagógica moral, sem ética pindérica, sem benzida noção de decência ou de beato decoro.


Apenas dessa forma a beleza que utilizamos é uma outra espécie de inteligência. A inteligência que se pode espreitar, pecaminosamente, maliciosamente, pela fechadura do desejo. A agulha no palheiro.


O absolutamente exigido é que nunca nos coloquemos à venda e perceber que temos somente a perspicácia de apenas fazer com que alguns encontrem os seus preços.  

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14 rabiscos

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De OKaede a 16.01.2017 às 20:09

Juro que às vezes perco-me na sua teia de pensamentos. Contudo, arrisco-me a discordar num ponto: A beleza atualmente também é comprada. Milagres são feitos para atingir naturalidades invejáveis. E não se esqueça que há tantos Dorian Grays ocos neste mundo que fazem doer na alma, no momento em que tentam ser prestáveis.

Podes esclarecer ao leigo a tua conclusão final:"O absolutamente exigido é que nunca nos coloquemos à venda e perceber que temos somente a perspicácia de apenas fazer com que alguns encontrem os seus preços."

Talvez não perceba, porque afinal sou feio. Genes sempre são uma coisa tramada.
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De Gaffe a 16.01.2017 às 20:52

A naturalidade não pode ser comprada, pelo menos na modalidade e na área que refere. A beleza existe, ou não. Não a podemos pagar para ter. Não existem "Dorian Gray". É sempre o retrato que permanece imaculado e fechado na perfeição. O original sempre foi estúpido.

Se usarmos a beleza como arma - não condeno de maneira nenhuma esta possibilidade - há que ter em conta que esta utilização nao implica uma venda. Não vendemos, nem compramos nada. Não somo um talho. Ao utilizar a beleza para dominar determinado problema ou conflito ou interesse, e se vencemos, apercebemo-nos que quem foi afinal avaliado foi o que se deixou confundir, o que sucumbiu ao fascínio que a beleza exerceu sobre os seus domínios. Neste caso, e dependendo do "grau" de beleza que tivemos de usar e do modo como o usamos mantendo-nos ilesas, é revelado o "preço" do que não resistiu. Há aqueles que exigem uma extraordinária manipulação de dificil sucesso e há outros que se esmagam com um sorriso. São os mais "baratos".

É evidente que nos desgastamos. Mas qual é a batalha que não nos desgasta?

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De Um cético a 16.01.2017 às 22:19

A beleza é efémera. Quando desaparece, e desaparece muito rapidamente, lutamos e ficamos com quê?
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De Gaffe a 16.01.2017 às 22:46

Claro que a beleza é efémera. Claro que desaparece num ápice.
Repare que no entanto a beleza, para o ser por completo, necessita de ser cúmplice da inteligência. É essencial a inteligência para que a beleza se cumpra. Sem inteligência somos apenas bonitos. Esta dádiva demora muito mais tempo a esfumar-se.
Falo da beleza que coadjuva inteligência. Não da beleza como peça única ou passível de ser "comercializada".

Ficamos com o que com ela ganhamos e com o que com ela perdemos. Há mais universos do que aqueles que medimos. Ficamos com as vivências que elas - beleza e inteligência em simbiose - nos entregaram ou nos retiraram. Não se trata de carne no campo de batalha da vida. Trata-se de transcender o que é fisicamente belo através do raciocinio inteligente e de dominar o raciocinio através do uso da beleza. Trata-se de unir e usar, não de utilizar apenas e só uma arma por muito poderosa que ela seja.

Só atingimos o que é nosso quando sabemos usar o que já temos e só o conseguimos com a consciência da efemeridade que o tempo nos fornece e, custe o que custar, utilizando em conjunto todas as armas que mesmo sem querer herdamos. Não adianta nada resumir o dito a um elogia do poder físico da beleza como acção solitária. Nunca a beleza se cingiu apenas a um corpo destinado ao fracasso. É um somatório fenomenal de outras exigências para alem desta e nem sequer a perfeição física é necessária para que se possa falar dela como atributo de alguém.

Quer maior arma do que esta que nos fica depois de escoada a beleza fisica, para continuar a luta?!
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De Já convencido a 17.01.2017 às 00:24

Uma bela resposta.

Mas e os que nascem sem terem herdado a beleza, ou a inteligência ou mesmo as duas?
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De Gaffe a 17.01.2017 às 09:29

Os que herdam a beleza, mas não a inteligência, são apenas bonitos.
Os que herdam a inteligência, sem herdarem a beleza, acabam por transformar a ausência da segunda em, por exemplo, charme ou elegância.
Os terceiros não sei.
Provavelmente estão esbardalhados a ler o que se escreve e a divagarem sobre o assunto sem terem percebido uma palavra.
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De Gaffe a 17.01.2017 às 12:14

:)))
Os assobios foram em maior número...
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De Corvo a 17.01.2017 às 13:02

Os terceiros não sabe, mas devia saber.
Vivem na mesma. Quando se faz uma panela faz-se sempre um testo para ela.
:)
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De Gaffe a 17.01.2017 às 13:18

Claro que vivem.
Mas, como já referi, não sei cozinhar.
:)
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De Corvo a 17.01.2017 às 17:19

Não sabe cozinhar???
Mas devia, também!
O que esteve a fazer com o cozinheiro nestes dias em que desapareceu daqui, hã?
Teve tempo de sobra para aprender, ora essa.
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De Gaffe a 17.01.2017 às 18:19

Muita receita para experimentar, foi o que foi.
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De Maria Araújo a 17.01.2017 às 20:40

" Os terceiros não sei.
Provavelmente estão esbardalhados a ler o que se escreve e a divagarem sobre o assunto sem terem percebido uma palavra."

Ahahahaha! Estou nos terceiros.
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De Gaffe a 17.01.2017 às 21:29

Que tolice!

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